Aluno muito tímido também deve ter atenção especial na escola

Caso do aluno que atirou na professora sugere reflexões nas escolas; timidez pode esconder as angústias de uma criança

 

Algumas coisas que acontecem na vida parecem não ter explicação. E não têm mesmo. Tentar compreendê-las não passa de especulação. Mas sem fazer isso, a dureza de alguns fatos torna-se demasiadamente pesada. Só depois de se falar muito deles, pensar, sofrer… Só assim algo poderá ser elaborado.

Um desses acontecimentos foi bem recente. Trata-se do menino Davi, de dez anos, que após atirar em sua professora, atirou em sua própria cabeça, cometendo suicídio. Algo incomum para uma criança dessa idade. Diante do que aconteceu, seu pai tem consciência de que nunca vão obter uma resposta.

Achar que foi apenas uma brincadeira que deu errado, como alguns cogitam, é dar um significado muito simplório à atitude do garoto. Nossos atos não são meros acasos, eles têm um sentido. Ainda mais em se tratando de tentar matar o outro e matar-se a si próprio.

Há indícios de que havia um desconforto do aluno em relação a essa professora. E ideias verbalizadas do que ia fazer. Inclusive, mostrado num desenho.

O que não é de todo estranho – desenhou a ele com duas armas e a figura de uma professora. Nem sempre damos atenção ao que as crianças dizem e expressam em seus desenhos. Que, é claro, só poderão ser entendidos dentro de um contexto. Ele disse o que ia fazer e cumpriu.

De uma maneira planejada – pegou a arma do pai e negou, quando questionado, que estivesse com ela. O fato surpreendeu a todos, inclusive a professora. Davi é descrito como criança quieta e tímida, aluno exemplar e com poucos amigos – o que ele fez parece não se encaixar em seu perfil.

Geralmente a preocupação de pais e escola é dirigida às crianças mais agressivas e arteiras. Elas também podem extrapolar. Mas a criança muito quieta e tímida não é assim à toa. As vezes, a angústia delas é maior.

As primeiras expressam seu sofrimento, tendo chance maior de receberem ajuda. As mais fechadas, não. Não causam transtorno e parecem bem adaptadas as suas condições de vida. Quando manifestam sua dor, tendem a fazer de maneira extremada.

Talvez essa seja uma das lições que se pode tirar dessa situação. Outra questão a ser levada em conta, que gera muita preocupação, é o acesso que se tem a armas de fogo.

Na casa de Davi havia uma, que seu pai ensinou a manusear. Quando usada, pode ser fatal. Ele era apenas uma criança de dez anos, não condiz com seu momento de vida saber lidar com uma arma. Vai além de sua maturidade. Não é qualquer um que deve ter acesso a elas.

Quem sabe essa tragédia possa ajudar a pensar nessas questões e promover mudanças.

E agora o que resta? Muita dor e questionamentos, que não devem ser colocados debaixo do tapete. Devem ser olhados e encarados. Não falar sobre o assunto tende a aumentar o sofrimento daqueles que vivenciaram de perto a situação. Como aconteceu com o menino Davi.

A escola tem um papel importante nisso, abrindo espaço para que professores e alunos expressem sua dor. Como a atitude de levar rosas brancas no retorno as aulas. Mas, também, propiciando que eles conversem sobre o ocorrido.

No começo não será fácil para muitos. Com o tempo as coisas tendem a melhorar.

Torço para que todos – família, cuja dor deve ser lancinante, e escola – encontrem paz depois de tragédia tão grande.

 

Fonte: Ana Cássia Maturano (Especial para o G1)

 

O caso do menino suicida

O caso do menino de 10 anos que atirou na professora e depois se suicidou suscita, compreensivelmente, grande curiosidade do público pelo inusitado assustador do fato.

Num acontecimento como este é da psicanálise que a sociedade espera alguma luz e ela não pode se furtar a isso. Não é porque há o estereótipo do “Freud explica” que devemos abrir mão do extraordinário instrumento para a compreensão dos atos humanos constituído pela psicanálise. Seria um desperdício inadmissível, tão lamentável quanto o equívoco diametralmente oposto, configurado pelo uso acrítico e onipotente deste saber, atribuindo-lhe uma onisciência e infalibilidade incompatíveis com os limites inerentes a quaisquer áreas do conhecimento humano.

Devemos lembrar que tragédias como a que aconteceu em São Caetano se dão no seio de famílias e grupos sociais e que as pessoas nelas envolvidas – atingidas brutalmente pela ocorrência –nem sempre estão disposta a se exporem ainda mais ao olhar do público. Preferem não falar dos conflitos pessoais subjacentes que poderiam ter alguma ligação com a tragédia, atitude que têm o direito de manter até certo ponto, pois, como tais circunstâncias estão centradas na consumação de um crime, os fatos têm de ser estabelecidos pelos agentes da lei através de uma investigação policial.

Mais ainda, além do silêncio deliberado e consciente apresentado pelos envolvidos, devemos levar em conta a dimensão inconsciente também presente nestes acontecimentos. Os mecanismos de negação, cisão e repressão podem fazer com que, às vezes, os familiares, amigos e colegas mais próximos não se deem conta da condição patológica do agente da tragédia, ou – o que é mais abrangente e comum – não se apercebem da qualidade patológicado vínculo que os une enquanto grupo familiar ou social, sendo o executor apenas o membro mais atingido de uma patologia que atinge a todos.

Por este motivo,sem faltarcom o respeito pelo sofrimento dos familiares, professores e amigos envolvidos no caso, vejo com reservas as declarações confusas e contraditórias que fizeram na mídia. O namorado da professora chegou a dizer que a mesma havia se queixado bastante do menino, que seria problemático e agressivo, e até mesmo teria feito queixas contra el na diretoria. Já a própria professora, ao saber quem era o autor dos tiros, teria se surpreendido, pois considerava tal menino muito “bonzinho”. Em seguida,o namorado retirou as primeiras afirmações, dizendo ter-se enganado e que a namorada teria se referido a outro aluno. Colegas do menino afirmaram que, no dia anterior, o mesmo havia confidenciado que planejava matar no dia seguinte a professora. Também foi dito que, por ser manco, o menino sofria “bullying” na escola.

No correr dos últimos dias, estas versões que continham indícios que exigiam a atenção das autoridades, foram abandonadas e substituídas por uma outra que define o menino como “bonzinho” e apresenta seu gesto homicida e suicida como resultante de uma “brincadeira que não deu certo”, como teria dito a diretora da escola.

Embora não seja possível estabelecer relações causais simples e diretas num acontecimento como esse, é importante entender que algo assim não ocorre gratuitamente, sem motivos. Necessariamente há fatores precipitantes e facilitadores que não podem ser negligenciados. Que um menino de 10 anos tenha tentado matar a professora e depois cometido o suicídio é algo de máxima gravidade, que –em princípio – deve ser visto como um sintoma,um indício de sérias disfunções possivelmente presentes em seu entorno. Dizer que tudo não passou de uma brincadeira desastrada e infeliz é um bom exemplo do mecanismo de negação. Lamentavelmente, a precariedade que rege muitos de nossos inquéritos pode fazer com que as peças mais reveladoras da investigação não sejam reconhecidas, deixando prevalecer essa tese inadmissível, mas mais cômoda e anódina para todos.

É procedimento básico das investigações descobrir as motivações e as redes de relações afetivas quando ocorre um crime entre adultos. Tal conduta fica reforçada quando menores estão envolvidas num crime, pois a condição psíquica de uma criança implica na não autonomia,em sua dependência emocional dos adultos importantes que a cercam, em cujo desejo muitas vezes está ela alienada.

Se a dimensão familiar da tragédia exige o respeito pela privacidade que deve ser mantida até o ponto em que a investigação policial permitir, a faceta que envolve a escola aponta para um problema de conhecimento geral. É notória a insuficiência do ensino público nos mais diversos aspectos, o despreparo dos professores, o baixo nível de aprendizado, a violência crescente entre professores e alunos.

Ao atirar numa professora e em seguida se matar, o menino mostra como as crianças podem ser muito violentas. Há mais de cem anos, Freud provocou escândalo e grande resistência da sociedade ao mostrar que a sexualidade não se iniciava na adolescência e nem se restringia à genitalidade, que ela estava presente na vida infantil e se caracterizava por uma dimensão perversa polimórfica. A existência das pulsões agressivas e destrutivas na infância parece ter recebido uma repressão ainda maior. Prova disso é o chamado “bullying”. Que apenas muito recentemente tenha sido cunhado um termo para uma prática que sempre existiu – diferentes manifestações de agressividade entre crianças – mostra como prevaleceu a negação do fato. Compete-nos a todos não negar esta realidade e tratar a questão sem moralismos hipócritas. As crianças não são seres angelicais. São pequenos seres humanos em formação, mergulhados no universo psíquico dos adultos que os cercam, dotados de pulsões sexuais e agressivas que necessitam ser educadas, contidas, socializadas.

A importância maior do reconhecimento da complexidade envolvida num caso como este é possibilitar sua plena compreensão e, a partir dela, estabelecer os cuidados preventivos necessários.

 

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo