Artigo: Família, lugar ideal de acolhimento e cuidado, por Claudia Vidigal

25mai2012---bebes-acolhidos-pelo-lar-da-crianca-padre-cicero-instituicao-que-cuida-mais-de-20-criancas-e-adolescentes-em-brasilia-poucos-estao-habilitados-para-adocao-1337955404903_956x500Sabe-se que a primeira infância é etapa fundamental e que marcas deixadas neste período podem ter consequências importantes no desenvolvimento infantil, bem como por toda a vida adulta. É claro, tanto para a comunidade acadêmica, quanto para a sociedade em geral, que o vínculo mãe-bebê é de extrema importância nesta etapa. Assim, pensemos juntos sobre um bebê que é separado de sua mãe logo ao nascer ou em seus primeiros meses. Este pequeno sujeito corre alto risco de ter seu desenvolvimento comprometido e exige cuidados ainda mais atentos e afetivos, certo? Seria isso possível em um ambiente institucional?

Estima-se que cerca de 10 mil crianças menores do que 5 anos estejam hoje acolhidas no Brasil. Educadores ainda pouco preparados, precisam lançar mão de todo seu arcabouço pessoal e familiar para acolher esse pequeno ser da melhor forma possível. A falta de continuidade na presença de um mesmo educador é uma realidade no ambiente institucional, apesar dos esforços das equipes em busca da qualidade. Um bebê exige paciência ao seu tempo singular e respeito às suas demandas, ainda mais permeado pelo sofrimento da separação.

Há mais de 70 anos os primeiros estudos trouxeram dados sobre os atrasos no desenvolvimento de crianças separadas de suas famílias e acolhidos em diversas instituições por todo o mundo; abrigos grandes e de pouca qualidade, é verdade. Os números eram estarrecedores: as crianças que cresciam em instituições, não só eram menos desenvolvidas cognitivamente, como tinham dificuldades importantes de relacionamento e, mais terrível, seu índice de mortalidade era muito maior quando comparado ao grupo de crianças em suas famílias.  Amparada por esses dados, a ONU, na Convenção dos Direitos das Crianças (1989), garantiu junto aos países signatários o direito de cada criança a crescer em ambiente familiar, com cuidados individualizados.

Mais de 25 anos se passaram, com o Estatuto da Criança e do Adolescente em vigor, e ainda temos cerca de 35 mil crianças e adolescentes acolhidos no Brasil, com aproximadamente 95% em instituições. Apesar de termos abrigos de excelente qualidade, precisamos de novas alternativas de cuidado. Os programas de famílias acolhedoras, por exemplo, prioritários pelo ECA, são muito poucos. Ainda mais se comparamos com países europeus, Estados Unidos e Canadá, onde tais programas compõe a maior parte da política pública de proteção.

O processo de desinstitucionalização passa por diversas estratégias, dentre elas programas de prevenção, oferecendo aos pais atenção integral, suporte real e a possibilidade de permanecerem com seus filhos. Quando acolhemos, caímos no paradoxo de protegermos a criança da violência e negligência praticada pela família, ao mesmo tempo em que negamos o seu direito fundamental à convivência familiar e comunitária. O caminho é a manutenção das crianças em seus núcleos familiares, fortalecendo-os para que ajudem seus filhos a se desenvolverem plenamente.

Há quatro anos, na Semana de Valorização da Primeira Infância e Cultura de Paz, promovida pelo Senado desde 2008, tive o privilégio de conhecer o programa Chile Crece Contigo. Nossos colegas apresentaram estratégias bem sucedidas de suporte à família de forma inspiradora e generosa, pareciam desesperados para que fizéssemos o mesmo; o site, com ferramentas para as famílias, todo o material com suporte de especialistas. Investimento na formação dos membros da família como melhor e maior estratégia para o crescimento de um país. Lembro-me da chilena falando em ritmo suave: Fale com o bebê, cante para ele as cantigas que sua mãe cantava para você, olhe para ele nos seus olhos, sorria.  Não é tão difícil assim fazer uma criança brilhar e um país todo crescer.

Ocorre que por vezes a família falha e a separação é necessária. O momento da separação é de um sofrimento gigantesco para pais e filhos. Por isso o acolhimento deve ser excepcional e provisório. Mas quando ocorre, é preciso oferecer o melhor cuidado para aquele que, sem qualquer responsabilidade, é quem mais sofre: a criança e, em especial, a criança pequena.

Segundo o professor de Harvard Charles Nelson, conhecido pelo robusto trabalho sobre os danos consequentes da institucionalização, há  quantidade relevante de trabalhos embasando o movimento pela não institucionalização, especialmente de bebês. Para o Professor, com quem tive a honra de debater sobre o futuro do acolhimento no Brasil, a esperança reside na possibilidade de atendimentos individualizados, sobretudo em núcleos familiares, já que há fortes evidências científicas quanto à eficácia dessas estratégias para o bem cuidar das crianças pequenas.

Um movimento liderado pela Unicef em toda América Latina tem a meta de não termos nenhuma criança abaixo de 3 anos sendo encaminhada para instituições. O Instituto Fazendo História, ONG que oferece estratégias e formação para os serviços de acolhimento, participa desta campanha e acaba de aprovar um projeto para iniciar o atendimento em famílias acolhedoras na cidade de São Paulo. Seja nas famílias de origem, nas adotivas, ou em qualquer que seja o modelo de acolhimento, fiquemos com a lembrança de que olhar para o bebê, falar com ele e nomear o mundo para ele não é só necessário, mas fundamental. É isso o que faz o Palavra de Bebê, programa da ONG dedicado a melhor acolher a primeira infância.

Assistindo TV aqui na Califórnia, onde resido atualmente, em horário nobre, a propaganda dizia: Converse com o seu bebê, olhe nos seus olhos. Leia, cante as cantigas de sua infância. Será que os americanos também escutaram a chilena? Parece que a sabedoria popular une-se mais do que nunca aos dados científicos e aos líderes de governo. Estamos todos certos de que investir na primeira infância é prioridade. Que bom que o Senado no Brasil está junto neste movimento, favorecendo essa experiência fantástica que é a Semana de Valorização da Primeira Infância, em sua 8ª edição, de 20 a 23 de outubro próximo, em Brasília. O evento gratuito, inspirou e segue inspirando educadores e gestores públicos de todo país.

 

Claudia Vidigal, psicóloga, é presidente do Instituto Fazendo História, integrante da Rede Nacional Primeira Infância

www.fazendohistoria.org.br

(Foto de ilustração: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

3 comentários para “Artigo: Família, lugar ideal de acolhimento e cuidado, por Claudia Vidigal

  1. Sou educadora e tenho feito a minha parte trabalho com amor e dedico o meu tempo com qualidade sei que tenho feito diferenca na vida destes pequenos.Pois estou convicta que é de suma importância o amor as horas que ficamos juntos pois muitas vezes essas crianças ficam mais tempo conosco do que com seus país.Se todos os país e os educadores soubessem a importância do acolhimento .

  2. Olá, eu Ana e meu marido Luiz somos família acolhedora, em Joinville- SC. Trabalhamos com acolhimento de crianças há nove anos, já acolhemos crianças de diversas idades, entre quatro dias e nove anos de vida.
    O acolhimento de bebês é sempre o mais difícil, mas também o mais prazeroso. Ultimamente estamos recebendo mais crianças entre zero e três anos e concordamos com esta senhora chilena, a criança se acalma e se alegra quando conversamos com ela, cantamos para ela, e reage bem quando antecipamos cada movimento.
    Acreditamos que é importante também atender a criança assim que ela se manifesta, sempre dando a ela a certeza de que estamos por perto e ela não mais será abandonada ou negligenciada em suas necessidades.
    Trabalhamos e torcemos pelo crescimento do acolhimento familiar de qualidade no Brasil, pois; Se queremos um mundo melhor, precisamos de pessoas melhores para este mundo.
    Abraços
    Ana Magali e Luiz Roberto
    Família que acolhe
    Joinville – Santa Catarina

  3. Faço minhas as ultimas palavras deste texto
    “Se queremos um mundo melhor,precisamos de pessoas melhores para este mundo.”

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