Brincadeiras

Hoje, criança não tem onde testar seu corpo para desenvolver alegria na vitória e tolerância à perda

 

Qualquer avô é capaz de enumerar os jogos infantis de sua preferência quando criança. Eram outros tempos aqueles em que vizinhança garantia espaço e amigos.

Ninguém tinha medo de brincar na calçada. As crianças do vizinho eram nossas companheiras de brinquedo. Alguns felizardos tinham quintal em casa. Quem morava num beco, numa vila, tinha espaço garantido. Existiam brinquedos para dia de sol e de chuva. Alguns exigiam espaços grandes: soltar pipa, pegador; outros, chão de terra, como bolinha de gude. O mundo mudou. Mesmo onde há espaço e chão de terra, o perigo ronda. Não há semana que não se ouça falar de violência contra crianças ou perpetrada por elas.

Não se brinca em área pública, é perigoso. Não há criança brincando na rua nem na periferia nem em bairros de classe média. Isso nos obriga a reescalonar os jogos, adaptá-los às circunstâncias.

Não é possível condenar as crianças a brincar de corpo e força só nas férias. E, mesmo aí, sempre monitorados. O corpo e a mente precisam ser exercitados. Hoje, o espaço para as crianças inventarem, improvisarem, sumiu: elas estão sempre monitoradas. Em festas, se contrata monitor, partindo do pressuposto de que criança não sabe mais inventar. Criança, hoje, não tem espaço para desenvolver sociabilidade, solidariedade, competitividade, alegria na vitória e tolerância à perda, sem a supervisão de um adulto devidamente treinado para ensinar sem frustrar.

Brincar livremente é o laboratório de estruturação do conhecimento corporal e da imagem corporal. É pela repetição dos movimentos que acumulamos dados sobre quem somos, quanto podemos, no que somos melhores e quanto aguentamos. Se não há oportunidade de testar meu corpo próprio e tomar consciência de seu potencial e limitações, ocorre um processo de aleijamento.

Quando a criança não é supervisionada, cria condições de se testar enquanto alvo e agressora. Reconhece seu limite (o quanto aguenta) e sua força (a intensidade com que pode atingir o outro). Em resumo: mapeia quem é quem no seu mundo de troca de pancada e carinho. O que resta sem monitor são os jogos eletrônicos. Felizes são as crianças cujos pais oferecem clubes, esse amplo espaço público/privado protegido, onde, por hipótese, se encontram pessoas de mesma “tribo”.

Gostaria que existisse uma plataforma livre para que as crianças pudessem brincar usando os próprios corpos -e não só os dedos das mãos, como nas novas tecnologias.

 

Fonte: Anna Veronica Mautner é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, e autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (ed. Ágora) e “Educação ou o quê?” (Summus)