Cinema/criança: o audiovisual que a criança vê

Em que contexto foi criada a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis?

A Mostra começou em 2002 a partir de uma motivação pessoal muito forte. Depois de viver alguns anos no Rio de Janeiro, eu me mudei com dois filhos pequenos para a capital catarinense e me deparei com uma situação assustadora: não havia programação cultural voltada para crianças que não fosse em shopping center. Achava um absurdo não ter onde levá-los. Nasci em Santa Catarina, mas morei no Rio dos sete aos 20 e poucos anos. Vivi o teatro de Maria Clara Machado, também ia muito ao cinema. Quando voltei para Florianópolis, eu me vi sem atividade cultural infantil. Em 2002, eu já trabalhava como produtora executiva de filmes adultos. Percebi essa carência e pensei em montar uma Mostra de Cinema para criança. Eu via que para atingir as crianças precisava estruturar um projeto-escola. A Mostra é realizada em 17 dias. Durante a semana, recebemos grupos de escolas. Aos finais de semana, abrimos para o público em geral e cobramos um ingresso simbólico. O encerramento da Mostra sempre tem um show para o público infantil.

Além de exibir aos filmes, vocês também realizam algum trabalho de mediação?

Percebemos a necessidade de trabalhar com os professores, para mostrar as possibilidades do audiovisual na sala de aula. Nossa Mostra apresenta produções diversificadas do País e do mundo. Não são filmes comerciais. O curioso é que, assim que a Mostra foi criada, já tínhamos essa intenção de exibir filmes nacionais, mas não havia muitos. Então, em paralelo à Mostra, criamos também os Encontros Nacionais de Cinema Infantil, reunindo produtores, para descobrir esse material. Fizemos pesquisas na Ancine e descobrimos que só 2% dos filmes exibidos no cinema são para as crianças, sendo que a maior parte deles é de filmes comerciais, como as superproduções da Xuxa ou dos Trapalhões. Nas primeiras edições da Mostra, garimpamos filmes internacionais e passamos a contar a história do cinema infantil, com ficção e animação. Uma das produções que exibimos foi Pluft, o fantasminha. E de cara vimos a dificuldade da linguagem, porque as crianças de hoje estão acostumadas com cortes muito rápidos. Elas ficavam impacientes. Mas achamos importante passar também esses filmes mais antigos.

Qual o perfil do público que acompanha a Mostra?

Trabalhamos com crianças que, normalmente, nunca foram ao cinema. Ou seja, o projeto também tem caráter de inclusão social. Quem pode pagar ingresso de cinema hoje em dia? Poucos. Em 2009, atingimos 26 mil crianças. Tomamos o cuidado para que não seja uma experiência negativa para a criança. Tem que pensar que, para a criança, em primeiro lugar o cinema deve divertir. Isso é importante para cativá-la. As crianças querem as novas experiências. Elas estão abertas para o novo. Mas também é preciso trabalhar com uma escala de valores. Sou bem “careta” nesse sentido. Queremos resgatar na criança o universo lúdico. Hoje há pressa para crescer. Vejo crianças de oito anos de idade vestindo roupas de adulto.

E como é a receptividade desse público?

De modo geral, muito positiva. Mas sempre há resistências. Algumas crianças ficam impacientes com as animações mais antigas, por causa da diferença de linguagem. Uma vez, exibimos A agulha e a linha, uma animação linda, baseada na obra de Machado de Assis, que era em preto e branco. Alguns pais chegaram a sair no meio da sessão.  Um deles reclamou. Fiquei arrasada. Então, perguntei a outra criança se ela tinha gostado e ela respondeu que sim, que era o máximo. Percebi que não dá para agradar toda a plateia. Nesse episódio, vi nossa obrigação em mostrar a diversidade para a criança.

A Mostra conta com algum aporte financeiro para sua realização?

Organizamos a Mostra sem parcerias com governos. Hoje, a Mostra é realizada com Leis de Incentivo Federal e municipal, que custeiam não apenas a realização do evento, mas o transporte das crianças até o local de exibição dos filmes. Também temos monitores treinados. Fazemos sorteios de livros durante as sessões. Com as novas produções para esse público sendo retomadas, criamos em 2006 uma Mostra competitiva também, com premiação em dinheiro. Recebemos inscrições de todo o País. Acho que é estratégico trabalhar com formação de plateia. Como uma criança formada com o cinema norte-americano vai gostar de filme brasileiro, quando se tornar adulto? O interessante é que esse movimento nos aproximou de outros festivais do exterior. Há três anos, fizemos parceria com o Festival de Malmo, na Suécia, organizamos um pitching para a realização de um longa-metragem todo custeado por um Fórum de Financiamento. O vencedor foi Eu e meu guarda-chuva, da Conspiração Filmes.

Como você avalia a produção de audiovisual infantil hoje?

Acredito que hoje a gente viva um divisor de águas da produção do audiovisual infantil. Cinema para crianças são sempre as maiores bilheterias do País. Então, não entendo porque não se investe nisso. No ano passado, pela primeira vez, conseguimos a presença do Ministério da Cultura e mostramos a diversidade das produções. Depois disso, o Ministério lançou um edital de desenvolvimento de roteiro de longa-metragem infantil. Acho que as pessoas dessa área começam a perceber que precisamos ir além. Também há um projeto de lei do senador Cristovam Buarque que obriga a exibição de filmes brasileiros na sala de aula. Tudo isso vai mudar a realidade do formação de público. Temos que investir nessa formação. Outra forma é organizar oficinas, como as que fazemos com as crianças durante a Mostra. O grande problema do nosso cinema é a distribuição. Procuro disponibilizar essas produções na Internet. Não se vê filmes infantis nacionais à venda nas livrarias. Só que muita gente pede. Ainda estamos aprendendo a produzir filmes para crianças. Aprendemos com os pitchings, com a participação em mostras internacionais. Durante o Fórum de Políticas Públicas de Cultura, organizamos 18 propostas, que incluem: destinar uma porcentagem do orçamento do Fundo Nacional de Cultura para a produção de audiovisual infantil; apoiar produções culturais para a infância; promover a exibição de curtas-metragens nacionais infantis no cinema antes das sessões de filmes estrangeiros; entre outras.

www.sesctv.com.br/revista.cfm?materia_id=79

Luiza da Luz Lins: Luiza da Luz Lins é curadora e idealizadora da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, realizada há nove anos, nos meses de junho e julho. Formada em Comunicação pela PUC do Rio de Janeiro, Luiza milita pela ampliação das produções nacionais voltadas às crianças e pela melhoria da qualidade do produto audiovisual infantil. Luiza também realizou dois curtas-metragens infantis e costuma representar o Brasil em festivais internacionais que debatem esse tema.

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