A CRIANÇA E O ESPAÇO: A CIDADE E O MEIO AMBIENTE

Inspire-se - Movimento Boa Praça

Movimento Boa Praça

Moradora do Alto de Pinheiros, em São Paulo, a pequena Alice estava prestes a completar 4 anos de idade em 2008, quando pediu à mãe, Cecília, que a festa fosse realizada no parquinho da praça François Berlanger, perto de casa. Surpresa, Cecília disse à filha que o espaço estava muito deteriorado e que seria difícil organizar a celebração ali. Ouviu como resposta:

“A gente conserta, mãe”.

Foi da energia e do desejo de uma criança, acolhidos pela mãe e por todo o bairro, que surgiu o Movimento Boa Praça. Cecília levou a sério a ideia da filha e convocou toda a comunidade a colaborar. A proposta era que a menina abrisse mão dos presentes, para ganhar de quem pudesse contribuir um parquinho novo na praça de que tanto gostava. Deu certo.

À pedido de Cecília, a subprefeitura consertou os brinquedos e emprestou toldos. Amigos músicos da família foram tocar, um supermercado doou lixeiras que foram instaladas e uma academia das redondezas colocou uma cama elástica para as crianças. Alguns vizinhos deram dinheiro, outros foram contar histórias, fotografar, fazer mosaicos, plantar, colaborar como podiam. Para a comunidade, ficou um parquinho revitalizado e o sentimento de que podiam fazer mais. Ou ainda: que deviam, pois se deram conta de que se não ocupassem e conservassem o espaço, em poucos anos ele estaria novamente deteriorado.

Carolina, que morava a cinco quadras dali, em frente a outra praça mal conservada, foi conferir o resultado da mobilização. Levava consigo o desejo de também proporcionar a seus dois filhos um espaço aberto com qualidade para brincar. Juntou forças com o grupo e decidiram, então, que se reuniriam todo último domingo do mês nas praças da redondeza, para realizar piqueniques comunitários e os reparos necessários. O objetivo desses encontros é que o espaço saia sempre melhor do que quando eles chegam. Até hoje, já fizeram mais de 60 atividades.

“O ciclo que tentamos quebrar com a nossa existência é o do abandono: a praça está abandonada porque ninguém vai ou ninguém vai porque está abandonada?”, resume Carolina.

Para realizar as intervenções de melhoria, o Movimento Boa Praça busca o diálogo com a vizinhança da praça onde atuará, tentando entender suas principais demandas e necessidades. As crianças também são incluídas nas escutas, por meio de brincadeiras, contação de histórias, desenhos e outras dinâmicas para incentivar a participação infantil.

Na praça em frente à casa de Carolina, por exemplo, os alunos de uma escola que fica localizada no entorno foram ouvidos. Os dois pedidos principais foram a construção de uma área para jogar bola, e mesinhas para estudar, pois algumas crianças e adolescentes reclamavam que não conseguiam se concentrar em casa direito. A demanda foi atendida.

Para qualquer intervenção maior que seja necessária, o Movimento Boa Praça solicita à prefeitura, e sempre a comunica de seus planos para os espaços. Em geral, o que precisa ser feito é mais simples e depende apenas da atuação dos vizinhos. Eles são convidados a colaborar com aquilo que sabem, como jardinagem, marcenaria e pintura, e, para as atividades de lazer que alegram os piqueniques, realizam apresentações teatrais, sarais, projetam filmes e montam bibliotecas, entre outras coisas.

“Uma das coisas mais valiosas deste processo é o senso de pertencimento à comunidade. Eu conheço as pessoas que moram no meu entorno. Meu filho brinca na praça sozinho, ele conhece todas as pessoas, crianças, cachorros do bairro. Se ele circular aqui perto, sei que os vizinhos estão de olho. É o que se chama de olhos da rua. Quanto mais conexões numa comunidade você cultiva, mais segurança você tem naquele tecido social”, conta Carolina.

O grupo atua regularmente nas praças da região que fica entre a Lapa e Pinheiros, mas costuma expandir o conhecimento acumulado ao longo de oito anos de existência para outras regiões, apoiando iniciativas semelhantes, realizando formações ou acessando editais públicos.

Em 2010, o Movimento Boa Praça realizou, em parceria com a Associação ProScience, o Projeto Boa Praça, que foi selecionado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) e financiado pelo Fundo Especial do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (FEMA). A iniciativa foi realizada na Praça Amadeu Decome, na Lapa, Zona Oeste de São Paulo, e teve como objetivos realizar um diagnóstico do espaço e da comunidade em seu entorno, mobilizar os moradores e formar agentes socioambientais locais, para amplificar e replicar boas práticas.

Em 2013, o grupo ajudou a criar a Lei sobre Gestão Participativa de Praças, que foi sancionada em 2015 e propõe que a população seja incluída na administração e manutenção desses espaços. Agora, o objetivo é realizar um levantamento do perfil das mais de cinco mil praças de São Paulo, a fim de melhorar a gestão e o uso dessas áreas em prol das comunidades em seu entorno.

 

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2016 Secretaria Executiva da Rede Nacional Primeira Infância - Triênio 2015/2017: CECIP - Centro de Criação de Imagem Popular