A CRIANÇA E O ESPAÇO: A CIDADE E O MEIO AMBIENTE

Inspire-se

Sementes do Nosso Quintal

Uma escola onde o tempo e a natureza da criança são respeitados e orientam a educação. Assim é a Te-Arte, escola privada da capital paulista que inspirou o documentário Sementes do Nosso Quintal, lançado na 14ª edição do Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA), que aconteceu em junho de 2012 na Cidade de Goiás, e participou da 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, tendo sido premiado pelo público como melhor documentário brasileiro. Muito mais do que um belo filme, Sementes do Nosso Quintal é uma peça de inspiração para todos os interessados em desenvolver iniciativas relacionadas à primeira infância.

“A Te-Arte pode inspirar políticas públicas, começando pela simplicidade. A ideia não é replicar o método, pois ele só será eficaz se for adequado ao contexto e à comunidade em que está inserido. Em São Paulo, a Terezita (Tereza Soares Pagani, fundadora da Te-Arte) reparou que faltavam espaços para brincar, estar em contato com a natureza e interagir com pessoas e crianças de outras idades”, afirma a diretora Fernanda Heinz Figueiredo, que estudou na escola quando criança.

Pelas sensíveis lentes do diretor de fotografia do documentário, Rodrigo Menck, descobre-se um espaço que remete aos quintais das casas de interior, cheio de plantas, árvores, terra e animais. O espaço externo é muito valorizado na Te-Arte: é lá que as crianças passam grande parte do tempo, descobrindo-se. O brincar é o que orienta a aprendizagem, pois parte-se do princípio de que toda criança já é naturalmente uma consumidora voraz de conhecimento, apropriando-se dele pela brincadeira e a experimentação.

A alimentação segue o estilo dos quintais e assume-se como uma cozinha caipira. Os pequenos se deliciam com os alimentos, lambem os pratos e se lambuzam com frutas e frutos. É desta maneira, pela vivência, que a Te-Arte promove uma educação ambiental transformadora.

“Na primeira infância, a educação ambiental está atrelada à experimentação, à brincadeira e ao contato com a natureza, e à percepção pelos sentidos. A criança precisa se sentir bem, feliz, e perceber a natureza no corpo dela, sentir a terra, a areia, o frio, o quente e o vento. Depois, mais crescida, ela adquire informações e transforma as sensações numa consciência, preocupando-se em reciclar, reduzir consumo e economizar energia”, afirma Fernanda, que decidiu documentar a experiência da Te-Arte quando estudava educação ambiental em Barcelona, na Espanha, e se deu conta do pioneirismo do trabalho de Terezita no Brasil.

Outras importantes características da escola são a valorização da cultura popular, do contato entre alunos de diferentes idades e do diálogo. A arte é vista como continuação do brincar, sendo a música um elemento central. Desde cedo, as crianças desenvolvem intimidade com instrumentos, ritmos e danças populares. Celebram-se festas e datas relacionadas à cultura brasileira, a fim de incentivar nos alunos a valorização do saber e da memória popular.

A convivência entre crianças de diferentes idades na Te-Arte, que tem alunos de 8 meses a 7 anos, é uma forma de estimular a aprendizagem. É bom para as crianças observar os maiores, pois elas se reconhecem no processo de descoberta de conhecimento. O letramento, por exemplo, acontece num espaço com acesso aberto para outros alunos. Assim, naturaliza-se a descoberta da leitura e da escrita.

Na Te-Arte, as crianças participam de todas as conversas, seja sobre qual assunto for. A diretora Terezita valoriza a capacidade de compreensão infantil e faz questão de incluir os pequenos nos assuntos que impactam suas vidas. Para viabilizar os diálogos, a linguagem e o tempo das conversas são apropriados ao universo das crianças.

Apesar da simplicidade que orienta a escola, nada do que acontece ali é simplista ou amador. Terezita dedicou uma vida a estudos e pesquisas sobre o desenvolvimento infantil. Seu profissionalismo e sua devoção ao bem-estar das crianças ficam claros no documentário. A escola foi fundada em 1975 e seu pioneirismo é tamanho, que já inspirou outras obras, como os livros “Quintal Mágico” e “De Volta ao Quintal Mágico”, da jornalista Dulcília Shroeder Buitoni.

Para Fernanda, todos os esforços para disseminar a importância do trabalho desenvolvido na Te-Arte são fundamentais:

“A ideia do filme era inspirar educadores, mas entendendo educadores de forma ampla. A sociedade inteira é educadora. A cidade é educadora quando assume esta vocação. Precisamos assumir esta responsabilidade de que todos somos educadores, pois, dependendo de como arquitetamos as cidades, podemos educar ou deseducar”.

 

 

inspireSe_Sementes_01 inspireSe_Sementes_02 inspireSe_Sementes_03

 

2016 Secretaria Executiva da Rede Nacional Primeira Infância - Triênio 2015/2017: CECIP - Centro de Criação de Imagem Popular