Crianças e tecnologias digitais: quem controla quem?

Em artigo, a psicanalista Claudia Mascarenhas Fernandes aborda o tema do uso dos eletrônicos por crianças, tema da sua palestra no  III Encontro Internacional sobre o Uso de Tecnologias da Informação por Crianças e Adolescentes/Jovens Adultos: E.S.S.E. Mundo Digital (E = Ética; S = Segurança; S = Saúde;  E = Educação), que acontece dias 21 e 22 de novembro, no Rio de Janeiro.

Crianças e tecnologias digitais: quem controla quem? – por Claudia Mascarenhas

Encontrar conforto na afirmativa “não se deve demonizar os eletrônicos pois não se pode mais fugir deles”, não pode justificar que crianças nos seus três primeiros anos de vida sejam expostas ou usem estes equipamentos como brinquedos.

A primeira distinção importante a se fazer é: o acesso fácil à informação não representa necessariamente a ampliação do desenvolvimento da criança ou sua melhor estimulação. Informar-se é diferente de aprender, pois depende necessariamente da relação com um semelhante próximo e, na infância, que seja presencial esta interação. Mas há também no apelo ao consumo e uso de eletrônicos como brinquedos que estimulariam a criança pequena, a lógica do “quanto mais cedo melhor”.

Pegar numa xícara, experimentar seu volume, seu cheiro, sua cor, a gravidade do objeto no ar, seu peso portanto, o deslocamento desse objeto no tempo e no espaço, e principalmente, o olhar do outro em relação a seus gestos com a xícara, a aprovação ou não, seus comentários, o cuidado para não cair e quebrar; esse aprendizado para uma criança de zero a dois anos é muito diferente da mesma xícara sendo mostrada na tela de um computador. A criança de zero a dois anos se desenvolve, aprende, amadurece  experimenta suas relações corporais no tempo e espaço com os outros, com os objetos ao seu redor e com seu próprio corpo. Por isso é enganoso também evocar a autoridade do cérebro para justificar o uso de computadores ou eletrônicos como os smartphones para o desenvolvimento de uma criança pequena, em sua primeira infância.

Além de dispensar as relações humanas, da ausência das experimentações, da precocidade exigida em autonomias com o dispositivo, empobrecer suas relações no espaço e no tempo, ao exercitar uma integração e modulação sensorial por exemplo, num desenho ou num jogo de videogame, a criança precisa discriminar a audição, visão, sensação tátil, o que significa que se há algum estimulo prioritário, constante e muito forte, haverá também prejuízos nessa modulação afetiva com a integração sensorial.

Dentre as características no uso de eletrônicos essa é uma das que pesam mais desapercebidas pelos pais: o seu poder de super estimulação visual em detrimento de todos os outros sentidos. A luminosidade que emana, seu super colorido e os movimentos acelerados de seus objetos e personagens, impõem às crianças uma dificuldade maior também para se desligarem dessa super estimulação. A criança “vidrada” ou “fascinada” que é bem diferente da criança “atenta”.

Há ainda um uso muito questionável quando se torna prática habitual: para a criança não “dar trabalho”. Evita-se assim no dia a dia com a criança pequena, o exercício das regras e limites e de se ensinar sobre o aprendizado da frustração de um “não pode” .

Finalmente : uma das questões mais complexas que enfrentamos no uso dos eletrônicos para as crianças pequenas é a economia das interações que ele provoca na criança, o abandono afetivo. As conseqüências disso estamos vivenciando na clinica. O isolamento tem sido comum e se confunde com “bom comportamento” ou “ficar quietinha olhando as telas, tanto da televisão como dos notebooks.

Por isso devemos todos nós, sociedade, escolas, governos, profissionais e familiares, dado que esse é um fenômeno que perpassa todos esses ambientes onde a criança pequena está e depende, uma tomada de posição, que é a mediação responsável na supervisão do uso de qualquer equipamento tecnológico.

Nem sempre há que se fazer do limão uma limonada, porque basta apenas também  um limão estragado, para estragar toda a limonada.

Claudia Mascarenhas é psicanalista, diretora clinica do Instituto Viva Infância, Doutora pela USP, e integrante do Grupo Gestor da Rede Nacional Primeira Infância

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