Diversidade e Educação Infantil, artigo por Vital Didonet

Artigo de Vital Didonet, professor e assessor legislativo da Rede Nacional Primeira Infância, apresentado durante Conferência feita no Seminário Internacional sobre Diversidad y Educación Parvularia, promovido pela Universidad de la Frontera, em Temuco, Chile, em 2004.

 

Diversidade e Educação Infantil

Introdução

Evoco quatro acontecimentos internacionais que nos colocam no coração da problemática deste Congresso – a educação no contexto da diversidade.

O primeiro e mais significativo é o Fórum Social Mundial, que se reúne anualmente, a partir de 2001, com o lema “Um outro mundo é possível”. No fórum de 2002, abriu-se uma discussão sobre diversidade e identidade. Esse assunto é trazido ao debate para se opor à uniformização cultural, à supressão das identidades locais e para afirmar a riqueza dos valores dos diferentes povos, culturas e sistemas de vida. Está muito longe, ainda, de obter consenso, mas avança-se no entendimento de que o outro mundo que desejamos construir deverá reconhecer a diversidade e respeitá-la, incluindo-a como uma de suas características essenciais.

O segundo acontecimento é o movimento das Cidades Educadoras. Seus idealizadores querem uma cidade que pense nas pessoas e atenda aos seus direitos. Uma cidade que, ao organizar e prestar serviços aos que nela vivem, respeite a pluralidade e a diversidade de seus cidadãos. ([1]). Neste ano acontecerá o VIII Congresso Internacional, em Gênova – Itália, com o tema: Outra cidade é possível. O futuro da cidade como projeto coletivo ([2]). Em 2006, o Congresso será em Lyon, na França e terá como objetivo criar uma nova cidadania baseada no diálogo e na participação e um governo democrático próximo dos cidadãos,  e na qual todos sejam conscientes de seu papel co-educador.

O terceiro fato é a Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais, realizado em Salamanca, em 1994. O Documento de Salamanca diz, entre outras coisas que:

  • cada criança tem características, interesses, capacidades e necessidades de aprendizagem que lhe são próprias,
  • os sistemas de educação devem ser planejados e os programas educacionais implementados tendo em vista a vasta diversidade dessas características e necessidades.

E o quarto é o Seminário “Igualdade, Justiça e Equidade… Mulheres por uma vida livre de racismo e discriminação”, realizado na Guatemala, em 2000. A Declaração aprovada pelo Seminário parte da constatação de…

“Que hoje, já entrado o Século XXI e no âmbito do complexo contexto da globalização, as meninas, as mulheres jovens, adultas e idosas, permanecem em um sistema de discriminação por etnia, gênero e classe. Que as múltiplas descriminações se manifestam nos âmbitos da educação, da cultura, do trabalho, da saúde, da cidadania, da vida familiar e política. E afetam especialmente a mulheres indígenas e afrodescendentes do mundo, mulheres com diversas identidades sexuais, mulheres que vivem desarraigo nacional e cultural”.

E recomendou, entre outros itens:

  • Reconhecer a educação como instrumento de promoção de novas práticas democráticas de valorização das diferenças, capaz de garantir a real e efetiva igualdade e equidade de oportunidades para meninas e mulheres jovens e adultas.
  • Exigir dos Estados e governos a transformação dos sistemas de formação de docentes, de tal forma que promovam o desenvolvimento de sua autonomia, dignidade profissional e poder de deliberação para adequar suas práticas no sentido de uma educação para não discriminar.
  • Exigir aos Estados e governos a inclusão nos currículos escolares de conteúdos para prevenir e erradicar o racismo e a discriminação, como uma estratégia política e ideológica que permita criar uma cultura de reconhecimento e respeito às diferenças.

Desses quatro fatos podemos extrair a mensagem de que a sociedade humana está buscando um outro mundo – e esse mundo é possível porque está em nossas mãos construí-lo – em que a diversidade seja respeitada e as pessoas atendidas como cidadãos segundo suas múltiplas características e necessidades.

I – Por que se levanta a discussão sobre a diversidade?

O tema da diversidade, que não é novo na história, está ocupando, a partir de 1980, grande parte das atenções da sociedade atual. Ele se expressa em dois campos interrelacionados: (a) no âmbito da cultura e (b) dos sistemas biológicos. No primeiro, a explicitação da diversidade levanta-se como reação à pressão homogeneizadora que as culturas dos países mais ricos fazem sobre as culturas locais, no bojo da globalização. Várias culturas e línguas já desapareceram e muitas outras estão sob o risco de sumirem ante a invasão de culturas dominantes, que tendem a uniformizar visões de mundo, padrões de conduta e valores dos países em que foram geradas. No segundo âmbito de discussão, a idéia central é de que a natureza é imensamente diversificada e essa diversidade é que garante a sobrevivência e a evolução da vida. O mundo vem tomando consciência do processo de degradação das condições ambientais desencadeado pelo desrespeito à diversidade e que é necessário mudar a atitude depredadora. A preservação do(s) ecossistema(s) é condição da qualidade de vida atual como também da continuação da vida sobre a Terra.

Essas duas realidades colocam o tema da diversidade no topo das questões mais relevantes do mundo atual.

Esse tema se erige, de uma parte, sobre os princípios tão caros à sociedade e aos indivíduos, da democracia e da liberdade, do respeito à pessoa e da atenção aos seus direitos e, de outra parte, sobre a necessidade de preservar os ecossistemas e a biodiversidade como condição da vida sobre a terra. Aceitamos a padronização dos produtos de consumo, em torno de critérios de qualidade, mas não concordamos com a padronização das pessoas, a uniformização dos gostos e vontades, a unicidade de  temperamentos e personalidades. Os povos, as organizações e os indivíduos reagem à imposição imperialista, às tentativas de dominação das mentes, aos governos autoritários que suprimem a liberdade em nome da “sua” liberdade ([3]).

Embora a biogenética já aponte como horizonte possível a produção de seres humanos em laboratório controlados geneticamente para apresentarem as características biológicas e físicas desejadas, não admitimos que essa possibilidade leve à manipulação das identidades e das singularidades humanas. A clonagem pretende criar seres idênticos, mas eles o serão apenas na origem, jamais no desenvolvimento, pois este é marcado pelas experiências, sempre únicas, pelo ambiente diverso, pela história individual. O mistério do ser humano reside, em parte, no seu potencial ilimitado de qualidades e opções, de tendências e gostos, de pensamentos e sentimentos que vêm à existência na interação com o meio social, cultural e físico. Quanto mais vivemos, mais diversos parece que ficamos.

II – Discutindo a diversidade na educação infantil

O tema da diversidade humana é tratado, entre outros âmbitos, na política, na cultura e na educação. Neste momento, vamos refletir sobre a diversidade no campo da educação infantil.

Algumas perguntas nos encaminham para uma reflexão sobre o tema:

Somos iguais ou diferentes? Como seres humanos, não temos todos as mesmas características – inteligência, sensibilidade, sonho, esperança, vontade de vencer as dificuldades, de encontrar saídas para os problemas – variando apenas em grau, não na essência? Não somos todos movidos pelo amor que nos aproxima e nos eleva? Nosso crescimento e desenvolvimento não seguem uma trajetória comum a todos os  seres humanos?

As ciências do corpo e da psique (biologia, medicina, psicologia…) não se fundam exatamente naquilo que é comum entre os seres humanos e, portanto, que os torna iguais ou semelhantes?

Quando nos referimos à infância, não estamos pensando num conjunto de características – etárias, processuais do desenvolvimento, desejos, necessidades, próprias do universo de indivíduos que se encontram em determinada etapa da vida e que, segundo tais características comuns, todos se assemelham?

A educação não tem por objetivo fazer os seres humanos mais semelhantes ainda, aos dar a todos os mesmos ensinamentos e propor-lhes desenvolver as mesmas habilidades básicas? Todos são reunidos no mesmo espaço, muitos vestem uniformes, usam os mesmos livros, estudam o mesmo currículo, têm que obedecer aos mesmos tempos e regras. Se os alunos têm diferenças entre si, a educação não está fazendo com que elas desapareçam, para dar lugar à uniformidade do conhecimento e do comportamento? A avaliação da aprendizagem não pretende, exatamente, estimular que todos os alunos se aproximem do mesmo grau de desempenho, levando em conta, não suas diferenças de ritmo, interesses ou necessidades de aplicação do conhecimento, mas o padrão requerido pela escola ou pelo sistema de ensino?

Com essas perguntas presentes, vamos refletir sobre algumas questões gerais de igualdade e diversidade, diversidade e desigualdade, singularidade individual e diversidade cultural e, em seguida, sobre algumas questões práticas referentes às conseqüências da aceitação da diversidade no sistema de ensino, nos estabelecimentos de educação infantil e na programação pedagógica.

III – Refletindo sobre alguns conceitos

  1. Somos iguais ou diferentes? Parece que a resposta melhor é: somos iguais e diferentes.

A igualdade humana é o princípio que fundamenta e organiza a sociedade democrática ([4]). As raízes da afirmação da igualdade entre todos os seres humanos foram plantadas pela Revolução Francesa, no seu célebre tripé: liberdade, igualdade e fraternidade. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, firmada pela ONU em 1949, também se fundamenta nessa tríade axiológica da liberdade, igualdade e fraternidade. De lá para cá a sociedade não largou mais esse princípio e, em nome dele, estabelece e exige os direitos da pessoa humana.  Esse princípio entrou nas Constituições dos países como igualdade perante a lei ([5]).

E esse é apenas um aspecto, pois na vida real as diferenças são marcantes. O princípio da igualdade produz dois resultados; um, pelo lado da negação: a proibição de preconceito devido à origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação; e, pelo sentido positivo, a promoção das condições que possibilitam a todos serem iguais, ou seja, determina a criação das mesmas oportunidades para todos. Reconhecendo, portanto, que as pessoas são diferentes, o princípio da igualdade define um sentido finalístico, de promover a igualdade real.

Em que consiste essa igualdade entre todos os seres humanos? Na dignidade da pessoa, na inteligência, no espírito, na vocação para a vida, no desejo de felicidade… e muitas outras características que nos fazem pertencer todos à mesma espécie humana e não credenciar ninguém a ser superior nem determinar ninguém a ser inferior aos demais. A declaração da igualdade é o reconhecimento de que pertencer ao gênero humano dá a cada pessoa o direito de autodeterminação; o direito ao respeito por parte do outro e, reciprocamente, o dever de respeitar o outro; o direito de não ser dominado, submetido, usado e, inversamente, não permite que alguém, sob qualquer pretexto, se autorize a dominar, submeter ou usar o outro. Ele funda, portanto, a sociedade democrática.

A igualdade como princípio ocupa o âmbito filosófico e político. Mas ela também está presente quando se consideram as características psicológicas e orgânicas da pessoa.

Em relação às psicológicas, seria interminável enumerar as características que todas as crianças possuem em comum (para ficar na infância). De passagem, citemos: todas as crianças são curiosas e querem descobrir as coisas, gostam de brincar e aprendem brincando, querem atenção e necessitam de carinho, constroem sua inteligência pela ação, têm iniciativa mas podem tornar-se contidas, se forem podadas desde cedo, são capazes desde que nascem, progridem na habilidade de resolver os problemas que as cercam, gostam de cooperar e ser solidárias, encontram maneiras de expressar os afetos, os pensamentos e as habilidades que vão construindo em si mesmas.

Em relação às biológicas e anatômicas, também encontramos semelhanças ou “identidades” que reforçam o comportamento uniforme diante das diversas crianças.

Com base nesses elementos comuns a todas as crianças, a educação tende a considerá-las iguais, apresentando-se a elas com a mesma didática e a expectativa das mesmas respostas.

Enxergando crianças… (projeção de fotos de crianças de diferentes países e culturas). Observemos algumas fotos de crianças…  Alguém poderia dizer: criança é criança em qualquer parte do mundo. “São todas iguais!”

Olhando crianças… (que é mais do que ver ou enxergar. Implica pousar o olhar atento). Será que somos iguais mesmo? Ou apenas parecemos iguais a um olhar menos atento e superficial?

Observemos novamente fotos de crianças… “São todas diferentes!” (projeção de novas fotos de crianças que ressaltam a diversidade física e cultural)

Em todas as características que dizíamos serem comuns a todos, encontramos diferenças. O que parecia ser igual, se olhado com atenção revela-se muito distinto, particular e único. No tamanho e formato do corpo, na cor e tipo de cabelo, na cor e forma dos olhos, na expressão do rosto, na profundidade do olhar, na revelação ou na ocultação de sentimentos, no ritmo da atividade, no brinquedo etc. Já não podemos dizer que todas as crianças são iguais. A diversidade num determinado grupo coincide com o número de crianças que o compõem.

IV – Diversidade como condição de sobrevivência e sucesso na aventura da vida

Desenvolve-se um projeto internacional chamado Projeto Diversidade do Genoma Humano ([6]), que estuda a diversidade e a unidade da espécie humana. Antropólogos, geneticistas, lingüistas e outros estudiosos e pesquisadores em diversos países vêm documentando a variação genética da espécie humana ao redor da terra.

A diversidade é uma característica inerente aos sistemas biológicos. Eles produzem as variantes como condição de êxito do processo de desenvolvimento. Não é a homogeneidade mas a heterogeneidade que permite enfrentar os desafios desconhecidos que aparecerão para os seres que vão surgindo, para viver e sobreviver nos tempos em que o ambiente muda de maneira imprevista. A produção de variantes, portanto, é que possibilita a evolução, o aperfeiçoamento. Pode-se dizer que o processo biológico não visa a produção de um ser perfeito, mas de variantes capazes de defender-se, vencer, sobreviver, ir à frente nos ambientes hostis e agressivos que possam apresentar-se.  A diversidade, portanto, não pode ser vista como imperfeição, mas como condição de sucesso de determinada forma de vida. “Nossa sobrevivência como humanidade também está na mão da diversidade. Ela depende de nossa capacidade de produzir e alimentar as variantes” ([7]). “A diversidade é o principal recurso da vida. O futuro dos sistemas vivos resultará das múltiplas opções atuais. A diversidade oferece flexibilidade. Ela garante que, mesmo se alguns caminhos são bloqueados aqui e ali, haverá caminhos alternativos para a vida continuar. A uniformidade é anti-vida. A uniformidade introduz vulnerabilidade por não oferecer outras opções. Só pode haver sustentar-se com um grande investimento e esforço e, no fim, tende à extinção. Diversidade é vida; uniformidade é morte” ([8]).

Portanto, temos que ver nossa diversidade como uma riqueza, não uma imperfeição. Os diferentes de nós não são privados, deficientes, inferiores, mas diferentes de nós, assim como nós o somos em relação a eles, porque todos somos diferentes. As múltiplas diferenças de ordem biológica e cultural que distinguem os seres humanos entre si não anulam o princípio da igualdade essencial do ser humano ([9]) e o direito de ser tratado na sua singularidade.

O que não podemos aceitar é a desigualdade social e econômica no acesso e usufruto dos bens da vida, dos frutos do progresso humano. Essa desigualdade constitui uma distorção e uma injustiça engendrada na sociedade humana, fruto do egoísmo, do ego ou etnocentrismo, do uso da força para dominar, excluir e oprimir. Da mesma forma que devemos respeitar a diversidade, temos que combater a desigualdade. A Seção Especial da Assembléia Geral das Nações Unidas, em 2002, ao assinar o documento “Um Mundo para as Crianças”, afirma:

“A discriminação gera um círculo vicioso de exclusão social e econômico e compromete a capacidade de desenvolvimento das crianças. Faremos todo o possível para eliminar a discriminação contra as crianças, quer se originem de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outro tipo de origem nacional, étnica ou social, propriedade, necessidades especiais, nascimento ou qualquer outra condição da criança ou de seus pais ou tutores legais”.

E, mais:

“É vital que as metas nacionais para as crianças incluam objetivos para reduzir as disparidades, em particular as que se devem à discriminação de raça , entre meninos e meninas, entre crianças das zonas urbanas e crianças das zonas rurais, entre crianças ricas e pobres e entre crianças portadoras de necessidades especiais e não portadoras de necessidades especiais” (item 25 da Declaração).

 

IV – Algumas conseqüências práticas

Aceitar que todas as crianças sejam diferentes umas das outras é fácil. Basta olhar para elas com um mínimo de atenção. Difícil é tratar educacionalmente essas diferenças e incluir a diversidade como fator de enriquecimento da aprendizagem. O desafio está em passar da constatação e da aceitação das diferenças para a sua inclusão no planejamento e na execução das atividades diárias.

A educação infantil é, talvez, o nível da educação mais propício para respeitar a diversidade e promover as características diferenciais das crianças. Entre os princípios que a guiam, encontram-se:

(a) A valorização da criança como pessoa, única e singular. Cada uma é conhecida pelo nome, procura-se conhecer sua família e envolvê-la de alguma forma na instituição de educação infantil

(b) O respeito à individualidade, aos gostos e interesses das crianças, permitindo fazer alguma coisa diferente do que está sendo desenvolvido pelo grupo

(c) A liberdade de iniciativa das crianças

(d) A construção da autonomia como objetivo da educação infantil ([10]), que orienta a ação mediadora do profissional para apoiar a criança no seu esforço por fazer as coisas por conta própria, de pensar e ter consciência de suas ações  e assumir a responsabilidade por suas decisões.

(e) A elaboração conjunta do planejamento dos projetos e das atividades diárias, ocasião em que as crianças expõem suas idéias, intuições, desejos e vontades na programação das atividades,

(f) O trabalho individual e em pequenos grupos, que dá oportunidade a cada criança de fazer o que gosta e da forma como consegue, de cooperar com os companheiros e de compreender os outros como iguais e diferentes de si mesma.

Analisemos, finalmente, algumas conseqüências que a aceitação da diversidade acarreta sobre o projeto educacional da instituição, sobre a pedagogia infantil e sobre a formação de professores para esse nível educacional.

  1. A educação infantil tem que ser na sua concepção uma educação inicial para todas as crianças, sem discriminação de qualquer natureza – gênero, raça, etnia, origem, nível sócio-econômico, necessidades especiais de aprendizagem. Por que? Se for concebida segregando, desde o início, nunca vai ser inclusiva, e, se aceitar as diferenças, vai entendê-las com um problema, algo que atrapalha. Não se pode aceitar a diversidade como uma concessão. Ela tem que ser entendida como condição da natureza humana e da vida cultural dos diferentes grupos sociais, que forma uma sociedade plural no jeito de ser e nas necessidades;
  2. É mais benéfico atender as crianças com necessidades especiais num ambiente que acolhe a diversidade do que em espaços exclusivos, separados. Estes podem concentrar especialistas e equipamentos apropriados, conseguindo melhores resultados individuais no desenvolvimento das habilidades das crianças,  mas, por segregarem, reforçam os conceitos de “diferentes”, “especiais”, “deficientes”. Não se trata, tão somente, de dar boa educação, mas de construirmos a cultura da inclusão;
  3. Ao considerarmos a diversidade, não estamos nos referindo apenas a duas categorias: a das crianças “deficientes” e as “normais”, mas a um contínuo que vai desde o mais severo grau de deficiência até à superdotação e ao leque de diferenças no modo de ser, entender, reagir, expressar-se de todas as crianças. A educação inclusiva abarca o contexto global da diversidade humana;
  4. Fomentar a cultura da inclusão;
  5. Dar uma nova visão das pessoas com necessidades especiais: não aquela tão em voga n passado, de pessoas passivas, que têm muitos limites, que necessitam apenas de ajuda, mas de pessoas que tem capacidades e possibilidades diferentes das demais e lhes oferecem alguma coisa de si muito importante. O Projeto Calamaris (Bologna, Itália, iniciado em 1986) recusou as expressões: deficiente, portador de deficiência, portador de necessidades especiais, (em português), desability, handicap (em inglês), minusválido (em espanhol), porque todos esses termos nomeiam as pessoas pela negação de qualidades. Em substituição a eles, criaram a expressão “diversabilidade”. A pessoa “diversabil” é aquela que tem uma habilidade diversa das outras. Por si só, essa expressão chama a atenção para se olhar para a pessoa buscando alguma habilidade, alguma característica afirmativa, positiva, afastando o conceito de deficiente, sem habilidade, sem capacidade;
  6. As instituições de educação infantil têm uma grande tarefa pela frente, para atenderem à diversidade das criança;

(a) elaborar a proposta pedagógica (currículo) levando em conta a diversidade das crianças da comunidade em que está inserida. E isso implica conhecer a diversidade cultural dessa comunidade e trazê-la para dentro da escola. Pode ser criado um sistema de informação para reunir dados sobre a diversidade;

(b) formar o seu quadro de pessoal com os diversos especialistas que possam atender a diversidade; formar uma equipe multidisciplinar. Um passo inicial pode ser colocar um professor a mais na sala que tenha crianças com necessidades especiais. Mas o passo seguinte é contar com todo seu quadro de professores formado para a educação na diversidade ([11]);

(c) adaptar os espaços físicos e os equipamentos de tal maneira que todas as crianças possam ter acesso, movimentar-se e usar os diferentes ambientes. Isso pode requerer a reunião de arquiteto, artistas, engenheiro, médico, psicólogo e educador numa equipe de planejamento dos espaços;

(d) adquirir e produzir materiais pedagógicos adequados para as crianças segundo suas necessidades de aprendizagem. A própria escola pode ter uma oficina de produção de brinquedos e outros materiais pedagógicos;

(e) desenvolver um programa de formação permanente de seus profissionais, por meio da reflexão sobre a prática, ou seja, a partir da experiência desenvolvida na própria instituição;

7. Uma questão central é a formação inicial (curso de graduação em nível superior) e continuada dos profissionais. São itens importantes na formação: (a) o entendimento da diversidade como condição e como riqueza da humanidade; (b) a disposição psicológica para acolher as diferenças e os diferentes, compreendendo-os e integrando-os no grupo; (c) a comunicação (observação, linguagem verbal e não verbal, linguagem de grupo); (d) diferença entre déficit e necessidades especiais; entre diversidade e desigualdade; (e) ampliar a visão da diversidade para além dos “portadores de necessidades especiais”; (f) a descoberta e o reconhecimento dos valores de quem é diferente;

Concluindo

No início dos escritos autobiográficos, Santa Terezinha do Menino Jesus diz que costumava perguntar-se porque algumas pessoas recebiam tantos benefícios de Deus enquanto outras lhe parecia que ficavam quase de lado. E ela nos ensina a lição que diz ter aprendido de Jesus: “Jesus dignou-se instruir-me sobre este mistério. Pôs-me diante dos olhos o livro da natureza e compreendi que toda as flores que ele criou são belas, que o esplendor da rosa e a brancura do lírio não tiram o perfume à violetinha e a encantadora simplicidade à margarida. Compreendi que se todas as flores quisessem ser rosas, a natureza perderia seu ornato primaveril e os campos não seriam mais esmaltados de florzinhas…”.

As orquídeas são as flores mais prestigiadas e admiradas. Há a sociedade dos orquidófilos, um grande número de sites na internet sobre orquídeas. Mas não há uma sociedade dos violetófilos ou dos admiradores das florzinhas do campo. Porque nossa humanidade valoriza as coisas e as pessoas segundo critérios seletivos, excludentes. Uma educação na e para a diversidade sabe o valor intrínseco e as qualidades de cada uma das pessoas e quer que ela esteja integrada no conjunto da sociedade, desfrutando da vida da melhor forma possível.

Notas

[1] A cidade será educadora quando reconheça, exercite e desenvolva, além de suas funções tradicionais
(econômica, social, política e de prestação de serviços) uma função educadora, quando assuma a intencionalidade e responsabilidade cujo objetivo seja a formação, promoção e desenvolvimento de todos seus habitantes, começando pelas crianças e pelos jovens.”  (Fragmento da Introdução da Carta das Cidades Educadoras, Declaração de Barcelona, 1990).

[2] www.aice2004.comune.genova.it/

[3] A reação à invasão armada do Iraque pelos Estados Unidos da América e à sua presença imperialista naquele país é um exemplo vivo dos tempos de hoje.

[4] “Por mais modesta que seja a inteligência de algum vivente, pode este vivente ser educado suficientemente para participar da vida e para participar dos atos que governarem a sua vida. Esta é que é a distinção profunda entre uma civilização baseada numa estrita ou, digamos, limitada conceituação científica da capacidade humana, e a civilização democrática, baseada na aspiração profunda, ideal, profética talvez, de que é possível construir a sociedade humana como a sociedade em que todos existamos como pares, e em que, independentemente das diferenças psicológicas, das diferenças econômicas, das diferenças sociais e das diferenças de história passada, possamos viver todos, como iguais, independentes e solidários”. Anísio Teixeira, em TEIXEIRA, Anísio. Extensão do ensino primário brasileiro. Boletim CBAI. Rio de Janeiro, v.10, n.6, 1956. p.1614-1618.

[5] O art. 5º da Constituição Brasileira diz: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…”

[6] Human Genome Diversity Project (the “HGD Project”) – www.stanford.edu/group/morrinst/hgdp.html

[7] http://www.Serendip.brynmawr.edu/sem_beh/diversity.html

[8] http://web.idrc.ca/em;ev-64518-201-1-DO_TOPIC.html

[9] “O pecado capital contra a dignidade humana consiste, justamente, em considerar e tratar o outro – um indivíduo, uma classe social, um povo – como um ser inferior sob pretexto da diferença de etnia, gênero, costumes ou fortuna patrimonial”. Fábio Konder Comparato, em: www.dhnet.org.br/direitos/decom/textos/konder.html

[10] Piaget coloca a conquista da autonomia mental e moral como objetivo da educação. A educação infantil incorporou esse objetivo em sua proposta pedagógica. Sabe-se, no entanto, que toda autonomia é relativa. No fundo, todos somos interdependentes e só podemos existir, sobreviver, progredir na vida porque fazemos parte de uma rede de solidariedade, de cooperação, de compromissos, de cuidados familiares, de amizades, de serviços profissionais.

[11] Quando foi adotada a integração na educação na Itália, há trinta anos, cada sala com crianças especiais recebeu um professor a mais. O passo seguinte foi formar todos os professores para serem educadores do grupo inteiro de crianças.

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