É o outro, é o seu olhar que nos define e forma

Por Maria José Rocha Lima*

É o outro, é o seu olhar que nos define e forma. Nunca vi em dezenas de anos de atuação na área de educação uma discussão tão veemente e didática sobre o papel do OUTRO no desenvolvimento infantil, especialmente nos primeiros mil dias de vida.

A Rede Nacional pela Primeira Infância (RNPI), as entidades a ela filiadas, como o Fórum de Educação Infantil do DF e a Plenarinha da Educação Infantil; a Comissão de Valorização da Primeira Infância e pela Cultura de Paz do Senado Federal; a Vara da Infância e da Juventude do DF; o Ministério da Cidadania e Desenvolvimento Social, tendo à frente o ministro Osmar Terra,  e as Frentes Parlamentares pela Primeira Infância, dirigidas pelas Deputadas Leandre Dal Ponte, Paula Belmonte e Júlia Lucy, ao colocarem essa questão em pauta, promovem um salto na história da infância no Brasil e, quem sabe, da educação. Ao falar sobre o que escrevi com Vital Didonet, ele fez uma justa advertência aos que lutaram na educação, inclusive nós. Tudo começou com a construção de fundos para a educação, inspirados em Anísio Teixeira, particularmente no FUNDEB, o qual elaboramos e nele protagonizamos a luta pela inclusão da educação infantil.

Uma influência importante, nessa questão, deve-se ao prêmio Nobel de Economia de 2016, James Heckman, que realizou um estudo de caso sobre a importância dos primeiros anos de vida das crianças, evidenciando serem um período crítico para a formação de habilidades e capacidades e serem determinantes para os resultados do ciclo de vida.  Um bebê nasce com ilhas de possibilidade de si mesmo. Ele tem organismo, e o que ele vive na corporeidade não vive de forma integrada.

Heckman (2016) conclui que as capacidades não estão definidas ao nascer ou são apenas determinadas geneticamente, mas são afetadas causalmente pelo investimento dos pais em suas crianças e que uma medida apropriada de desvantagem está mais relacionada à falta de qualidade do cuidado oferecido pelos pais, do vínculo, da consistência e da supervisão, que da renda familiar por si só.

Diferentemente dos animais, que nascem com um arsenal de instintos, o ser humano não nasce pronto. Se abandonado nos primeiros momentos da vida, sucumbe.  Por isto, o olho no olho, o abraço, o carinho e a conversa dos pais com o bebê são atitudes simples que fortalecem todas as estruturas neurais da criança, que nasce indefesa. É um ser desintegrado, que percebe de maneira desorganizada os diferentes estímulos provenientes do exterior. É do pediatra e psicanalista inglês Donald Woods Winnicott a afirmação de que “não existe um bebê sem a sua mãe” No começo da vida, tudo o que o bebê precisa é de uma mãe, ou alguém capaz de mantê-lo na ilusão de serem ambos  uma só pessoa, para pouco a pouco se diferenciarem em mãe e filho. O apego é o primeiro movimento relacional da dependência do outro – a criança descobre que a sua vida depende do outro. A tarefa da mãe é oferecer um suporte adequado para que as condições inatas alcancem um desenvolvimento ótimo.

Na compreensão do pediatra inglês, a primeira tarefa existencial do ser é tecer o fio, é criar a rede. Essa rede relacional deve nos fazer entender que é fundamental direcionar o olhar ao seu bebê, ofertar cuidados, dar-lhe amparo e sustentação para atravessar esses primeiros momentos da existência. São fios psíquicos que jogamos, enquanto bebês, em direção a outras pessoas, que devem corresponder, porque tudo o que o bebê busca é sustentação psíquica.

É preciso que o bebê possa experimentar a criação do mundo e a criação da sua própria mãe. Quando a mãe coloca o seio na boca do bebê, a criança experimenta o ato de criação. Em seu gesto em direção ao peito para suprir as suas necessidades, parece que ele criou o seio.

Para Winnicott, a ilusão é um fenômeno no qual a criança, tendo a possibilidade de atender as suas necessidades por um gesto por ela produzido (em direção ao peito), tem a sensação de que ela que o criou. A criança tem de ter a possibilidade de experimentar aquilo que a caracteriza como ser humano: o gesto, a criatividade, ter a possibilidade de experimentar a criação do mundo, a criação da sua mãe. A construção da singularidade ocorre desde o berço, onde aparecem as diferenças, inicia-se a singularização. Uns são excitação do corpo, outros são olhar.

Inicialmente a mãe precisa realizar movimentos no sentido de promover a maturidade neurológica do bebê, a realização da experiência intercorpórea, a comunicação interhumana a partir da sua presença,  a organização de funções para que o bebê sobreviva e alcance a experiência de vir a ser uno e singular.

O holding feito pela mãe é o fator que decide a passagem do estado de não-integração, que caracteriza o recém-nascido, para a integração posterior. O vínculo entre a mãe e o bebê assentará as bases para o desenvolvimento saudável das capacidades inatas do indivíduo.

E esse holding deve promover a confiança no ambiente, a confiança no outro, a fé na vida. Desses cuidados, amparo, sustentação inicial, desses socorros, quando ele sente frio, fome, falta de sustentação, angústias impensáveis, parecem depender  o futuro e  a autoconfiança desse serzinho. E a confiança é um pilar do psiquismo. A confiança é decorrente de uma série de experiências relacionais nas quais se acredita na amizade, no encontro, na comunicação e que o mundo tem uma estabilidade garantida pelas relações humanas.

O abraço, tão falado em prosas e versos, aqui não é apenas poético, é necessário para dar contorno ao corpo do bebê. A sustentação compreende, em especial, o fato físico de sustentar a criança nos braços, e que constitui uma forma de amar. Os estudos no campo da Neurociência, do cientista Jack Shonkoff (2016), do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard, e de James Heckman evidenciam que o futuro de uma criança e, consequentemente, de uma nação depende dos cuidados e educação da criança ao nascer.
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*Maria José Rocha Lima é mestre e doutoranda em educação. Deputada Estadual da Bahia de 1991 a 1999. Fundadora da Casa da Educação Anísio Teixeira.

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