A importância e os desafios do trabalho em rede pela primeira infância

(Por Beatriz Corsino Pérez e Marina Castro, da Secretaria Executiva RNPI/ CECIP – Centro de Criação de Imagem Popular)

A organização de uma Rede que tem a primeira infância como objeto de trabalho possui potencialidades e desafios. A possibilidade de articulação de diferentes organizações que trabalham na promoção e defesa da primeira infância, seja em âmbito nacional ou estadual, se constitui como uma força para influenciar e monitorar as políticas públicas voltadas para as crianças de até seis anos de idade.

Atualmente, existem dez Redes Estaduais da Primeira Infância no Brasil que reúnem diversas organizações da sociedade civil, do governo e do setor privado que tem como objetivo defender e promover os direitos das crianças pequenas nos estados. A Secretaria Executiva da Rede Nacional Primeira Infância tem buscado fortalecer as Redes Estaduais, através da realização de reuniões com as suas Secretarias Executivas para trocar experiências e construir parcerias. No Rio de Janeiro, a Secretaria Executiva da RNPI promoveu duas reuniões com organizações integrantes da Rede Nacional, com o objetivo de refletir sobre a importância de uma ação articulada das organizações que tem como causa a primeira infância no estado.

O trabalho em rede permite a construção e a implementação de ações intersetoriais, criando um caminho de diálogo entre os diferentes campos (educação, saúde, cultura, assistência social, entre outros). Dessa forma, cada organização-integrante pode contribuir com o seu saber, fortalecendo as ações comuns. A Rede, por sua vez, se torna um espaço de diálogo plural e diverso, tanto no âmbito da produção de conhecimentos quanto no âmbito da incidência política.rede 4

Sabemos que, muitas vezes, as crianças pequenas são consideradas apenas como uma responsabilidade da família, principalmente da mulher, que se vê desamparada de uma rede de apoio, serviços e programas voltados para o cuidado, a proteção e a educação das crianças. As Redes Estaduais e a Rede Nacional se propõem, nas diferentes esferas, a dar visibilidade a esse grupo social, atuando na promoção e na defesa de seus direitos, criando oportunidades de mobilização da sociedade civil. Em sua atuação, as Redes disseminam conhecimentos e informações sobre a situação da infância no estado e no país, fortalecendo as políticas destinadas às crianças de 0 a 6 anos.

Através da presença de organizações nos diferentes estados e municípios do país, as ações em Rede ganham capilaridade, chegando a lugares e a atores sociais onde dificilmente uma organização sozinha conseguiria ir. No entanto, a interiorização das Redes Estaduais ainda se configura como um desafio a ser superado. A maior parte das organizações-integrantes está localizada nas capitais dos Estados e em grandes centros urbanos, dificultando o acesso a informações e a mobilizações nas áreas rurais e do interior. Isso se dá pela concentração de organizações não governamentais, universidades e outros atores importantes das Redes nas capitais e também pela falta de recursos financeiros.

As Redes não recebem contribuições financeiras de seus membros e nem apoiam com recursos financeiros as organizações que fazem parte. Dessa forma, todas as ações se dão por militância ou através de projetos encaminhados pela Secretaria Executiva ou por alguma organização para financiadores dos setores público e privado. Dessa forma, a captação de recursos é um grande desafio que as Redes enfrentam para garantir a sua sustentabilidade.

Outro desafio é lidar com as diferentes perspectivas sobre a infância para chegar a consensos do que seria prioritário nas políticas públicas para as crianças pequenas. No entanto, o trabalho coletivo tem a potencialidade de criar mecanismos de controle social para que as ações que beneficiam as crianças aconteçam em longo prazo, se tornando políticas de Estado e não específicas de um determinado governo. A estratégia de criação de planos municipais pela a primeira infância possibilita a articulação da sociedade civil com o poder público para construir um projeto comum para as crianças, de forma horizontal e participativa. Por ser intersetorial, o processo de criação do Plano faz com que as secretarias municipais dialoguem entre si e conheçam o que está sendo feito dentro do próprio governo. É uma oportunidade para fortalecer as políticas públicas existentes e alinhar as concepções em relação à primeira infância. Esse exercício de construção coletiva é fundamental para o fortalecimento da democracia e de práticas participativas.

Mesmo com as dificuldades mencionadas, sabemos da nossa responsabilidade com a infância, não com adultos do amanhã, mas sujeitos de direito hoje – que sonham, desejam, brincam, inventam e pensam. Há uma diversidade de infâncias em nosso país que demandam atenções específicas dependendo da região onde vivem, de classe social, raça, gênero, etnia, entre outras características. Dar visibilidade as diferentes formas de viver a infância, buscar ações que possam reduzir as desigualdades sociais, criar espaços de fala e de participação das crianças visando à construção de uma sociedade mais justa e democrática, são imensos desafios e também potencialidades do trabalho em Rede.

(Por Beatriz Corsino Pérez e Marina Castro, da Secretaria Executiva RNPI/ CECIP – Centro de Criação de Imagem Popular)

Um comentário para “A importância e os desafios do trabalho em rede pela primeira infância

  1. Penso que um dos maiores desafios na Educação Infantil hoje é o cumprimento do direito à inserção da criança de zero a três na Creche. A demanda por vagas anda muito à frente das ações políticas para a realização desse direito.

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