Mais de 60 radialistas discutem a Primeira Infância em São Paulo

A Rede Nacional Primeira Infância (RNPI) e a ANDI – Comunicação e Direitos, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), realizaram no dia 18 de dezembro, em São Paulo, o encontro “Primeira Infância nas ondas do rádio – oficina de capacitação para radialistas”. O evento abordou a importância do Marco Legal da Primeira Infância, como o investimento social na Primeira Infância pode ser uma estratégia de prevenção à violência e a cobertura jornalística sobre o tema.

A oficina de formação contou com especialistas nas áreas de saúde, educação, direitos e família que palestraram para mais de 60 radialistas de todas as regiões brasileiras.

Direitos e Primeira Infância
Pela manhã, a mesa “Primeira Infância: desenvolvimento e Marco Legal da Primeira Infância”, contou com a presença de Fernando Louzada, membro-institucional da Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE) e do comitê científico do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), e Pedro Hartung, coordenador do programa Prioridade Absoluta, do Instituto Alana.

Fernando Louzada falou que é na primeira infância, período de zero a seis anos, que ocorre a plasticidade cerebral com uma enorme capacidade de aprendizado e conhecimento, mas, ao mesmo tempo, de muita vulnerabilidade. Segundo ele, as experiências intensas e fortes vividas nessa fase como, exploração, negligência e abandono, deixam marcas e geram consequências observadas até a fase adulta. “Por isso, os primeiros seis anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento do comportamento no futuro”.

Louzada apontou ainda as consequências que as interações com a tecnologia geram nas crianças. “Reduz a atenção e aumenta a impulsividade”. Pediatras recomendam o não uso de telas até os dois anos de idade; não usar durante as refeições; não usar pelo menos 1h antes de dormir e não usar como se fosse algo para acalmar a criança. Para assegurarmos uma primeira infância saudável devemos garantir às crianças os fatores fisiológicos (alimentação, atividade física e sono) e explorar suas potencialidades (competências cognitivas e socioemocionais) como também protegê-las das vulnerabilidades (estresse tóxico e uso de tecnologias).

Pedro Hartung recordou a importância do artigo 227 da Constituição Federal de 1988 como também do artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que trazem as crianças como sujeitos de direitos; a condição peculiar de desenvolvimento; a proteção integral; o melhor interesse da criança; a prioridade absoluta; a responsabilidade compartilhada e a rede de garantia dos direitos de crianças e adolescentes. Apresentou, ainda, o Marco Legal da Primeira Infância que trouxe em seu texto licenças maternidade e paternidade ampliadas. Hartung mencionou que a criança tem como referência um adulto, enquanto cuidador que desenvolve suas capacidades e habilidades. “O olhar integral para a criança envolve também a família, que cuida dela. Para cuidar das crianças, precisamos cuidar das famílias. Não existem direitos da criança e do adolescente se não garantirmos o cuidado de quem cuida delas. Precisamos, portanto, garantir o cuidado de quem trabalha com a primeira infância”. Cuidado, parentalidade positiva, acesso a políticas públicas de saúde e educação colaboram para um maior e melhor desenvolvimento da criança. “É preciso dar elementos e ferramentas para que os pais, dentro de casa, possam incentivar as crianças e dar a elas estímulos para fortalecerem a aprendizagem. Estímulos de conversa e afeto são importantes para o desenvolvimento”, destaca Pedro.

Primeira Infância nas ondas do rádio
A mesa “Mídia e Infância”, ainda na parte da manhã, do evento “Primeira Infância nas ondas do rádio – oficina de capacitação para radialistas”, focou na forma como o rádio noticia os temas relacionados às crianças de zero a seis anos. Com mediação do professor de radiojornalismo Marcio Peixoto, o debate ficou por conta das jornalistas Mara Régia e Marilu Cabañas que são tituladas como Jornalista Amiga da Criança pela ANDI – Comunicação e Direitos.

Mara Régia desenvolve projetos de capacitação para o uso do rádio no trato dos temas ligados à cidadania, com ênfase nas questões de gênero e meio ambiente. Há 25 anos apresenta o Programa Natureza Viva, em rede nacional pelas emissoras de rádio da Empresa Brasil de Comunicação: Nacional da Amazônia, Nacional do AltoSolimões, Nacional AM de Brasília e Mec AM do Rio de Janeiro. Marilu Cabañas começou a trabalhar com rádio aos 17 anos. Com mais de 30 anos de carreira jornalística e ênfase nas questões sociais, conquistou prêmios como Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo e Líbero Badaró de Jornalismo. Atualmente trabalha na rádio Rede Brasil Atual.

A mesa virou uma grande troca de experiência entre os mais de 60 participantes da oficina. A partir da discussão inicial sobre ética no jornalismo, o grupo ouviu e comentou reportagens veiculadas em várias emissoras de rádio que tratavam de temas ligados à primeira infância.

No bate-papo entre painelistas, mediador e participantes foi possível notar a necessidade de o rádio dar mais atenção às crianças e atuar com mais responsabilidade social ao abordar o tema. Uma das constatações foi a necessidade de abolir o termo ‘menor’ das coberturas, já que ele vem carregado de uma simbologia negativa, que criminaliza as pessoas. Em seu lugar, é possível usar, por exemplo, ‘crianças e adolescentes’, ‘meninos e meninas’ ou ‘garotos e garotas’.

Mão na massa pela Primeira Infância
A parte da tarde do evento foi dedicada a uma atividade prática, conduzida pelo professor de radiojornalismo Márcio Peixoto. Com 25 anos de jornalismo, Márcio tem experiência em assessoria de imprensa e parlamentar, comunicação organizacional, campanhas eleitorais, terceiro setor e associativismo, marketing político e veículos institucionais. Desde 2010 é professor de radiojornalismo no Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB).

Os participantes foram divididos em cinco grupos e, a partir do modelo de design thinking, técnica que permite a construção coletiva, criativa e crítica do conhecimento, discutiram pontos específicos voltados à primeira infância: Aprender, Brincar, Marco Legal, Saúde e Valorização.

A atividade movimentou a turma e, quem chegasse à sala sem saber o que estava acontecendo, pensaria que uma grande bagunça estava em prática. Na verdade, o design thinking usa da troca de experiência e de tempestades de ideias, quando palavras soltas são jogadas ao grupo, para permitir que, juntos e juntas, os participantes cheguem a algo novo. Neste caso, o novo foi uma reportagem de rádio. Cada grupo temático chegou ao fim da oficina com uma matéria pronta, feita coletivamente.

Para finalizar a reportagem, cada um dos grupos contou com o apoio de especialistas, que concederam entrevistas a partir das discussões feitas pelos integrantes dos grupos. Participaram desta fase Gilvani Pereira Grangeiro, assessora técnica da Coordenação Geral de Saúde da Criança e Aleitamento Materno do Ministério da Saúde; Janine Dodge, presidente da IPA Brasil – Associação Brasileira Pelo Direito de Brincar e à Cultura; Mayara Souza, advogada do programa Prioridade Absoluta, do Instituto Alana; Miriam Pragita, secretária executiva da Rede Nacional Primeira Infância (RNPI) para o triênio 2018-2020 e diretora executiva da ANDI – Comunicação e Direitos; e Thaiane Pereira, coordenadora de projetos do Todos Pela Educação.

 

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