Neurociência e alfabetização na Primeira Infância

Por Maria José Rocha Lima*

Há entre os educadores brasileiros um tremendo incômodo em relação ao atraso e lentidão nos processos de alfabetização. Paradoxalmente a toda esta dramática, professores; especialistas; e gestores da educação apresentam uma estranha resistência à alfabetização das crianças na educação infantil e nos anos iniciais da escolarização. As mudanças frequentes de idade; de expectativa social para a alfabetização refletem uma estranha inquietação. Para uns, a alfabetização deve se realizar aos seis anos, primeiro ano do ensino fundamental; para outros, aos sete anos; ainda há os que defendem o adiamento, do processo de alfabetização até os oito anos, denominando-a de idade certa.

A prova de que essa protelação não é a solução é que 50% das crianças brasileiras aos oito anos não sabem ler, nem escrever; e no norte e nordeste esse percentual chega a 70% de crianças aos oito anos, analfabetas. Essa resistência não encontra respaldo nas ciências, mas são abordadas, na maioria das vezes, com falsos argumentos, pretensamente científicos: “falta de maturidade psicológica para a alfabetização”; “precisamos respeitar o ritmo biológico dos alunos”; “não podemos roubar a infância” dentre outros. Contrariamente a tudo isto, os cientistas de várias partes do mundo são unânimes na afirmação de que o destino de uma criança depende, especialmente, do atendimento adequado nos primeiros anos de vida.

No campo da Neurociência, o cientista Jack Shonkoff (2016), do Centro de Desenvolvimento Infantil, da Universidade de Harvard, estudou um fenômeno chamado plasticidade cerebral, que ele descreveu como a capacidade do cérebro de ser flexível e adaptável e como ele pode reajustar-se para assumir novos desafios. Para ele, a plasticidade do cérebro está em níveis ótimos no nascimento e na primeira infância. Eu realizei inúmeras experiências de alfabetização na Primeira Infância no Brasil; em Angola e atualmente acompanho uma experiência muito bem sucedida da Escola Criança em Ação, em Planaltina, no Distrito Federal, sob a direção de uma Especialista em Alfabetização e Pós-Graduanda em Neurociência Professora Denise Silva, que tem obtido resultados altamente satisfatórios, com crianças na educação infantil.

E eu particularmente tenho constatado numa experiência em âmbito da família, reveladora de que as crianças pequenas são altamente receptivas e aprendem com uma extraordinária facilidade. É com uma menininha, Luiza Aragão, que tem um pai Rui Aragão muito presente e a mãe Gabriela Barros Aragão, uma enfermeira extremamente dedicada, que realiza um trabalho permanente de estimulação (muitas leituras: contação de histórias; rotinas bem definidas; rituais que se repetem; muita música; joguinhos diversificados com blocos; jogos eletrônicos) a menina com apenas dois anos possui um acervo de palavras, já incontável, porque com apenas 1(um) ano e nove meses contamos, que ela já sabia cerca de 100 (cem) palavras e usava em contextos apropriados e agora com apenas dois anos Luiza conta corretamente até 30, correlaciona objetos a um alguns numerais com facilidade; conhece figuras geométricas, e as representa; reconhece letras do alfabeto, correlacionando-as aos nomes mais familiares (mãe, pai, vovós, dindo) e recita o alfabeto em inglês; canta inúmeras músicas. Realiza pseudo-leitura com os livros infantis, de que mais gosta e pede repetição da leitura. Tudo isto, com a maior alegria do mundo.

Protelar e atrasar o processo de alfabetização só promove dor e sofrimento. Não é com alegria que os neurocientistas informam a triste realidade da biologia, determinando que a capacidade de mudar seus circuitos neurais diminui com a idade. Os primeiros anos de vida são determinantes para o futuro de uma criança. Estudos sobre a formação de habilidades mostram que o retorno dos investimentos na escolarização é mais alto para as pessoas com habilidades mais altas, quando estas habilidades são formadas mais cedo, como concluiu o Nobel de Economia James Heckman (2016). Para ele, o desenvolvimento acontece em outras etapas da vida, no entanto, uma etapa leva a outra. A criança bem formada consegue aproveitar melhor aprendizados futuros.

O Prêmio Nobel em Economia, James Heckman (2016) constatou que as capacidades não estão definidas ao nascer ou são apenas determinadas geneticamente, mas são afetadas causalmente pelo investimento dos pais em suas crianças e que uma medida apropriada de desvantagem está mais relacionada à falta de qualidade do cuidado oferecido pelos pais, do vínculo, da consistência e da supervisão, que da renda familiar por si só. Para ele, os primeiros anos de vida de uma criança são particularmente importantes. O economista conclui que é preciso mudar a foram de pensar sobre a Primeira Infância. O resultado nos países que mudaram, além do retorno econômico, foi o encorajamento das crianças a aprenderem e redução da violência.
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*Maria José Rocha Lima é mestre e doutoranda em Educação. Deputada da Bahia de 1991 a 1999. É fundadora da Casa da  Educação Anísio Teixeira.

 

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