Professor americano traz conflitos globais para sala de aula e alunos aprendem sobre cooperação e tolerância

A aula começa com a leitura de uma passagem de “A Arte da Guerra”, obra do chinês Sun Tzu (544- 496 a.C). Na sequência, os alunos pulam das cadeiras para confabular entre si.

Afobados, discutem como resolver o aquecimento global, o preço do petróleo, uma invasão de terras. O sino no corredor toca e a aula acaba, assim como mais uma fase do “Jogo da Paz Mundial”.

Poderia ser uma aula qualquer, mas trata-se de um complexo exercício de simulação política criado há mais de 30 anos pelo professor americano John Hunter, 56.

“Crianças têm um instinto natural de fazer o bem, seja a alguém com problemas ou ao inimigo. É o que chamo de compaixão espontânea”, diz Hunter à Folha, por telefone, de uma escola de Charlottesville, no Estado de Virgínia, onde ensina.

Filho de professora, Hunter cresceu na época da segregação racial, no interior do Estado, e fez parte das primeiras classes a misturar brancos e negros nos bancos da rede pública.

“Com o jogo, os alunos aprendem a não seguir o caminho do poder, da destruição e da guerra. Eles aprendem a reagir contra impulsos e a pensar a longo prazo.”

No “Jogo da Paz Mundial”, que dura cerca de dois meses, Hunter oferece aos estudantes os cargos de primeiro-ministro de quatro países fictícios, além de outros postos, como o de secretário-geral da ONU. “Mas eles escolhem seus times. E digo sempre: “não pense só no seu melhor amigo, mas em quem pode fazer o melhor trabalho”.”

Por duas semanas, a classe estuda um dossiê de 13 páginas escrito por Hunter, no qual dezenas de crises precisam ser resolvidas para terminar o jogo. Uma torre com quatro tabuleiros de acrílico traz pecinhas que representam o Exército de cada país, as riquezas, as minorias etc.

“SERIOUS GAME”
“Esse jogo é muito sério, aprendemos de verdade”, diz um estudante no recém-lançado documentário de Chris Farina, “World Peace Game and Other 4th Grade Achievements”.

Durante o jogo, descobrem-se também pequenos tiranos. Hunter lembra de um aluno “arrogante” que criava problemas com os outros e acabou causando um desastre ambiental numa plataforma de petróleo.

“A sabedoria coletiva cuidou do caso. O aluno foi levado a tribunal pelos colegas. Ele se desculpou e voltou ao jogo. E mudou sua atitude depois disso”, conta.

Hunter criou, no ano passado, uma fundação para disseminar os conceitos do jogo. Amanhã, dá palestra na escola de pós-graduação em educação de Harvard e, em julho, tem agendada sua primeira formação para docentes, em Boston, nos EUA.

“Quero que os alunos tirem do jogo ferramentas criativas para usar no mundo e, quem sabe, melhorá-lo”.

Fonte: Fernanda Ezabella de Los Angeles – Folha de S.Paulo

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