Report ‘Pais em casa’: impacto da pandemia na divisão do trabalho doméstico e de cuidado

Acreditando que o exercício de uma paternidade cuidadora, afetiva e participativa seja um dos caminhos mais acessíveis para a redução da desigualdade de gênero, quebra de estereótipos e melhora das relações familiares, a pesquisa PAIS EM CASA oferece uma perspectiva sobre o comportamento paterno; antes, durante e pós-pandemia, com o objetivo de analisar como a convivência cotidiana de pais com seus filhos, nesse período, pode modificar normas do comportamento masculino em direção a uma reconfiguração do papel paterno.

A atividade foi desenvolvida entre os meses de maio e agosto de 2020, pela 4daddy, na figura de seu fundador, Leandro Ziotto, em parceria com as pesquisadoras de gênero; Camila Pires, mestranda em Paternidades pela Universidade de Paris, e Tayná Leite, mestranda em sociologia na Universidade Federal do Paraná, escritora sobre maternidade e colunista da Revista AzMina, investigando os impactos da pandemia na divisão dos trabalhos domésticos e de cuidado, e teve a participação de 1554 respondentes (261 homens e 1293 mulheres), complementada pela pesquisa aprofundada com 21 pais e seis companheiras/esposas, desses pais heterossexuais, que se declararam participativos.

A pesquisa ainda conta com a reflexão e contribuição dos psicólogos Jarbas Junior e Vinicius Farani, e a validação estatística da Bianca Ambrósio, especialista em pesquisa de mercado.

Ao final são apresentadas quatro reflexões-chaves dos desafios que serviram como pilares para a construção de cinco ações práticas (macro e micro) voltadas à sociedade civil, iniciativa privada e Poder Público.

O Report visa mostrar que é urgente incluirmos os HOMENS na Economia do Cuidado, e assim, dar visibilidade a uma “Revolução Paterna” que se avizinha.

Premissas de pesquisa:

  1. O isolamento social reduziu a rede de apoio, aumento a sobrecarga das famílias brasileiras. (Precisamos compreender e acolher as novas demandas sociais)

  2. O trabalho do cuidado majoritariamente realizados pelas mães é invisibilizado e desvalorizado. (Precisamos reconhecer, reduzir e redistribuir esse trabalho)

  3. Existe um movimento de mudança no comportamento paterno contemporâneo em direção a uma distribuição equilibrada das funções parentais. (Precisamos dialogar sobre esta micro revolução, seus benefícios e resistências)

Principais highlights quanti:

  • maior peso do home office para quem tem filhos || média geral 78% declaram acumulo de funções durante a quarentena (85% mães e 74% pais, consistente. Sendo que entre aqueles sem filhos são 54%) || nossa amostra também aponta – 38% tempo sem interrupção mães vs mães sem filhos e – 24% pais vs homens sem filhos. Entre mães e pais, uma diferença de -15% tempo para as mães. || 63% mães, 37% pais passam +3h por dia em trabalhos não remunerados, sendo que entre sem filhos, apenas 20% mulheres, 7% homens.
  • 22% declaram divisão igualitária, destes 84% declaram satisfeitos/sendo que entre aqueles que respondem que passam mais tempo do que o parceiro, 71% estão insatisfeitos >> sobrecarga é percebida e ao dividir impacta diretamente na satisfação do casal.
  • os homens continuam “escolhendo” certas atividades, e lavar as roupas ainda é atividade menos realizada mas interessante notar que em média 70% dos pais declaram serem principais responsáveis ou partilhar 50% com parceiras atividades como cuidado das crianças e atividades educacionais (atividades menos realizadas antes do isolamento).

Principais Aprendizados QUANTI:

1)    Famílias estão sobrecarregadas, com mães sendo as mais demandadas, mas com os pais que se mostram impactados de forma consistente tanto em tempo despendido em tarefas de cuidado, quanto domésticas. Entre casais com filhos, mães realizam 21% a mais horas de trabalho não remunerado (cerca de 36 minutos por dia) e possuem 15% menos tempo sem interrupções do que os pais. Apesar de um maior engajamento dos pais, estes acreditam em equidade, enquanto a mulher não tem a mesma percepção. São pontos de vista distintos sob o mesmo tema.

2)    Pais continuam privilegiando a realização de certas atividades e evitando outras como lavagem de roupas. A maioria (70%) declara incluir no cotidiano, atividades como cuidado das crianças e atividades educacionais (atividades menos realizadas antes do isolamento).

3)    Divisão equilibrada das tarefas continua sendo a configuração minoritária (22% das famílias respondentes). Mesmo durante o isolamento a maioria (84%) se declara satisfeita em relação à divisão de tarefas de cuidado. Dentre os casais com filhos, 43% declaram que a participação do parceiro(a) está dentro das expectativas, com divisão mais equilibrada do que antes do isolamento social.

Principais highlights quali:

  • Pais que declaram se interessar sobre paternidade e buscam formas de exercerem a paternagem de forma próxima e afetuosa: Investigamos elementos da fala que mostrem de forma sistemática similaridades com o discurso materno em relação a carga mental, sobrecarga, sensação de trabalho infinito, organização da rotina, auto-cobrança, detalhes do cotidiano que indicam a propriedade do assunto. Entre os pais que declaram divisão igualitária e aqueles que relatam fazerem mais do que as parceiras, estes elementos aparecem consistentemente.
  • Entre os pais que fazem menos que as parceiras, a maioria delas estão sem trabalho remunerado o que reconfigura as dinâmicas. Surge algumas falas associadas a “ajudar” a companheira, mas interessante que eles relatam não estarem satisfeitos e desejam se envolver mais. Existe conflito interno. Não sabem como fazer e mesmo que se disponibilizem, falta iniciativa (Ex. quando viu, ela já fez). Maioria deles relatam também uma certa frustração das companheiras em estarem fora do mercado de trabalho e que desejam retornar. Eles apoiam!
  • Entre as parceiras, confirmam a narrativa dos pais e se mostram satisfeitas. Também é um processo conflituoso, muitas vezes querem que as coisas sejam de uma forma específica, mas passam a confiar no “jeito” do marido. Algumas citam até que os maridos fazem mais do que elas atualmente. Apoiam o envolvimento dos parceiros com o tema e conversam muito sobre combinados e referências.

Principais Aprendizados QUALI:

  1. Todos relatam a importância da comunicação entre casal, intenção, desejo. Falam de ser um processo, conflituoso, mudança de paradigmas. No começo relatam a necessidade de direcionamento, mas assumem protagonismo.
  2. Não buscam super valorização deste papel, pelo contrário, gostariam que fosse normalizado, pois, entendem que cuidar é sim o papel deles. Elemento que mostra uma reelaboração da narrativa do papel paterno.
  3. Grande maioria, pela falta de identificação no entorno presencial, acabam se encontrando e reconhecendo pelas redes, que passam ser uma forma de autoafirmação.

Sendo assim, compreender essa imagem social construída para os homens e para os pais é a chave para a mudança.

RECONHECER, REDISTRIBUIR e REDUZIR o trabalho de cuidado das mulheres. O reconhecimento e a valorização do cuidado e a inclusão dos homens nesse lugar, de responsável pela atividade essencial à manutenção da vida, é o caminho mais eficiente para a construção de uma sociedade mais igualitária, justa e economicamente sustentável.

Porém, para alcançar a distribuição do papel do cuidado, devemos definir metas (macro e micro) práticas e acompanhar o progresso em direção à igualdade.

Acesse e conheça a pesquisa: https://www.paisemcasa.4daddy.com.br

 

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