“Todo ser humano nasce poeta” – diferentes formas de integração das crianças à cultura é tema de roda de conversa da RNPI

Suzana Soares aborda primeiríssima infância durante encontro. Foto: RNPI / Nathália Gregory

Sob a copa das árvores do Museu da República, no Rio de Janeiro, integrantes do GT Cultura da Rede Nacional Primeira Infância, profissionais da educação infantil, psicólogos, artistas, estudantes, pais, mães e crianças conversaram sobre a importância da integração à cultura na formação humana, desde bebês. O dramaturgo Luiz André Cherubini, do Grupo Sobrevento, a especialista em educação infantil Suzana Soares Macedo, da Aliança pela Infância, a antropóloga Rita de Cássia Oenning, da organização Shine a Light, e Karen Acioly, do Festival Internacinal de Linguagens, todos integrantes do GT Cultura, puxaram a roda de conversa “Cultura e Primeira Infância”, no último dia 23 de novembro, e tocaram em temas como as especificidades das crianças na criação e fruição da cultura e arte, a importância do afeto e no acolhimento e integração desde bebês nas comunidades, e a arte voltada às crianças. O encontro começou embalado pelo cantor e compositor Márcio de Camilo, do projeto Crianceiras, que tocou uma série de músicas, entre elas “Canção de berço”, musicada a partir do poema com mesmo nome de Mário Quintana. ” Abre os teus olhinhos de ouro/ (O dia lhe diz baixinho)/ É tempo de levantares/ Que já canta um passarinho….”. (Clique aqui para ver o álbum de fotos completo)

Rita de Cássia Oenning

Rita de Cássia Oenning, antropóloga e fundadora da Shine a Light e Usina da Imaginação, iniciou as falas do encontro, relatando sua experiência com grupos indígenas do Rio Negro – e como a cultura desses povos envolve e dá lugar às crianças desde sua gestação, em festas e rituais. “As crianças participam das danças e, incorporam o ritmo e o movimento do grupo. Elas também se envolvem nos afazeres da casa, na produção do alimento. É um ‘saber fazer’ que é transmitido às crianças no dia-a-dia da comunidade”, pontuou. Rita mostrou ao grupo uma réplica de um banco da cultura Tukano, que é preparado por rituais sagrados durante a gestação, e serve de lugar de repouso para o bebê. “Esse novo ser que chega precisa ser feito na comunidade – e o banquinho é uma forma de preparar o grupo e de dar boas-vindas à criança”, afirmou. A antropóloga também apresentou um pequeno cesto da tribo Baniwa, com traçados próprios da cultura, e feito por crianças. “Os adultos ensinam as crianças à tecer os padrões geométricos próprios daquele grupo. As crianças não são forçadas a trabalhar – elas se envolvem, fazem um pouco mas depois interrompem o trabalho para brincar, elas querem participar e esse envolvimento das crianças no cotidiano é fundamental para a sua integração”.

Já a apresentação da especialista Suzana Soares de Macedo foi dedicada aos três primeiros anos de vida, e no espaço físico e mental que os adultos dedicam às crianças na primeiríssima infância. Suzana, que trouxe um pouco dos pressupostos da pediatra austríaca Emmi Pikler, fez uma conexão entre a saúde psicológica das crianças e o afeto dos adultos que são referência para os bebês. “A criança pequena expressa nossa necessidade primordial de sermos olhados. É como se ela dissesse: eu preciso de todos vocês, adultos. Mas na cidade, os pais e mães parecem estar sempre correndo para trabalhar”, contou Suzana, para quem os bebês são seres capazes, que merecem respeito e sensibilidade. A especialista em educação infantil defendeu a escola como um lugar muito importante na construção do sujeito, e um espaço de afeto, que permita a criança explorar livremente, com objetos do cotidiano. “A partir da visão da Emmi Pikler, o educador tem o papel de selecionar e oferecer objetos estimulantes, preparar espaços, e não de estimular as crianças, controlá-las ou distraí-las das suas próprias descobertas”.

Luiz André Cherubini, do Grupo Sobrevento

O ator, dramaturgo e diretor Luiz André Cherubini, do Grupo Sobrevento, apresentou para o grupo o conceito do Teatro para Bebês. “A arte para bebês parte de um simples princípio: todo ser humano nasce poeta, é capaz de se encantar desde o momento em que pisa no mundo. Vivemos em um mundo cheio de certezas e teorias – mas o teatro é filho da dúvida, o teatro é capaz de desmontar certezas científicas e outras formas de ver o mundo”, contou em sua apresentação. Luiz André relatou a experiência do Grupo Sobrevento, que fez apresentações em 180 creches públicas e conveniadas de São Bernardo, SP, e afirmou que o preconceito contra uma arte dirigida às crianças pequenas ainda precisa ser vencido: “Muitas pessoas ainda riem de quem faz teatro para bebês, e me perguntam se o próximo passo é fazer teatro para cachorros. Mas não: os bebês são plenos desde que nascem, os bebês têm noção clara do sagrado, da dimensão extraordinária do teatro – noção que a gente vai perdendo com tédio.”, afirmou. “Tenho certeza que os bebês são a fonte cristalina onde vamos beber quando tivermos exaurido nosso mundo em consumismo, utilitarismo e pragmatismo”.

Karen Acioly, do Festival Internacional de Linguagens e do Fórum Cultura e Infância, mediou os debates. “Bebês indígenas, urbanos, ribeirinhos, o amor, o sagrado e o vínculo une todos os bebês“. Karen também lembrou aspectos das políticas públicas para as artes para crianças, citou esforços dos coletivos de artistas e pensadores sobre infância na incidência junto ao Ministério da Cultura e secretários estaduais de cultura, e citou o exemplo da França, onde existem 130 festivais de arte e cultura para bebês.

Público participa do debate

Em seguida, o público presente fez considerações e comentários. José Luiz compartilhou do entendimento que é necessário resgatar os conhecimentos dos povos originários. “Precisamos de rodas, de aldeias, de todo mundo junto”. Bruna Brasil, mãe e representante dos coletivos  Casa da Criança e  “Bebês Eruditos,e tenho dito”, disse que compartilha da ideia que as crianças precisam estar livres para fazer, sem exigência de perfeição, se construindo e entrelaçando nos ambientes. E divergiu da ideia de um teatro voltado especificamente para bebês. “A criança tem que ser recebida em todos os espetáculos, museus, crianças tem que estar nos ambientes em que os adultos estão. Bebês têm a inteligência tão completa quanto a nossa, e tem o mesmo direito de fruir arte. Não queremos espaços diferentes, queremos que os bebês estejam em todos os lugares“. Luiz André Cherubini esclareceu que o Teatro para Bebês não é um nicho de mercado, e sim, uma bandeira. “Fazemos uma discussão da arte e do lugar da infância no mundo. A sociedade ainda precisa avançar muito no entendimento e inclusão das crianças, ainda é necessário disputar esse espaço para os bebês”.

Marcio de Camillo e Luiz André Cherubini

Maria Inês Delorme, integrante do GT Cultura e uma das autoras do blog Papo de Pracinha, apresentou a proposta do blog – de desemparedar a infância, e promover encontros das famílias – e reforçou o entendimento de que as crianças são inteiras, sujeitos da história. “As crianças trazem desconcerto, são pessoas novas”. Ana Marcílio, da Avante, também opinou sobre a integração das crianças nos espaços culturais. “Queremos integrar – mas entendendo as características e demandas específicas da criança. “Em cidades e lugares onde não há oferta de cultura é importante sim defender um espaço específico de cultura para a infância, inclusive envolvendo a escola e os espaços públicos“.

Rita de Cássia reforçou o entendimento: “-Marcar o território é importante para fortalecer a defesa de direitos das crianças. Criar setor só para criança ainda faz sentido no nosso contexto social e político”. Suzana Soares complementou “Vivemos numa sociedade de ansiedade e compromissos, e a criança traz um outro ritmo, nos obriga a reinvenção. Temos sim que proteger as crianças do mundo muito racional, precisamos de um novo olhar, de delicadeza e sensibilidade“. “Vamos sair diferentes desse encontro”, pontuou Karen. E nesse clima de sensibilização, debate e troca de aprendizagens, a roda de conversa foi encerrada com mais música, na presentação do cantor Márcio de Camillo e Luiz André Cherubini.

 

Rosa Maria Mattos – comunicação da Rede Nacional Primeira Infância

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *