A responsabilidade é nossa

Artigo escrito por Claudia Mascarenhas Fernandes, psicanalista, coordenadora do Instituto Viva Infância e integrante do Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP)

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Descobertas científicas em neurociências e genética serão sempre bem vindas para elucidar caminhos positivos para as pessoas, principalmente, para as crianças. Mas alguns problemas se impõem quando há, não só conflito de interesses implícitos, mas também quando apenas um lado das descobertas são divulgadas ao grande público. Outro fenômeno, não menos comum, tem sido a idéia de que as citações de pesquisas sobre o cérebro dariam maior credibilidade às informações. É enganoso usar a autoridade do cérebro para garantir a verdade. A proposta deste artigo não é criticar a  ampla difusão de pesquisas cientificas, mas sim poder oferecer oportunidades para que as pessoas possam conseguir ler nas entrelinhas a complexidade de fatores e interesses que envolvem cada pesquisa e sua divulgação.

Sabe-se que um dos grandes avanços atuais em pesquisa científica tem sido a epigénetica, que consiste em estudar as alterações ativas dos genes que não estão apenas subordinadas a variações das seqüências de DNA. O que significa que há partes de genes que se modificam na relação com o meio. Já estão sendo demonstrados mecanismos moleculares que descrevem o quanto fatores ambientais podem modificar a atividade genética profunda. Uma das principais conseqüências disso é a problematização do determinismo genético, tão usado anteriormente em políticas públicas ditatoriais ou facistas.

No caso específico da criança, a libertação de determinismos genéticos pode favorecer uma abertura de olhares em relação ao seu vir a ser. Se não há mais a garantia de que determinadas crianças terão seu futuro marcado para sempre, porque está escrito em sua carga genética, a influência do ambiente também não pode ser considerada como uma fatalidade determinista. Esse ambiente precisa, de uma vez por todas, ser visto como responsabilidade nossa, dos adultos.

Mas o que é esse ambiente? É um ente abstrato que está afastados de nós? Não. Esse ambiente somos nós, nós e nossa responsabilidade no educar, tratar, divulgar, participar, amar, orientar, e sobretudo, em como olhar uma criança. Essa responsabilidade se traduz na prioridade dada as políticas públicas para a primeira infância, que podem diminuir impactos emocionais difíceis ou mesmo carástróficos para o desenvolvimento da criança. O ambiente não é imutável, assim como parte do gen também não o é. Isso significa que realmente temos mais responsabilidade com o que fazemos e como nos posicionamos em relação à criança.

As pesquisas têm apontado que existe uma distância considerável entre as observações neurobiológicas e as conclusões publicadas na mídia, por exemplo. “Mas entretanto um exame mais atento mostra que o neurobiologistas contribuem para essa deformação que aparecem no seio dos próprios artigos científicos” (Gonon, 2013). O autor distingue três tipos de deformações estudadas no quadro da análise da literatura: 1. A incoerência deflagrante entre resultados e conclusões, que felizmente é uma deformação mais rara. 2. Quando uma conclusão forte é afirmada no resumo omitindo os dados que fazem chegar àquela conclusão. 3. O terceiro tipo de deformação consiste em informar de maneira abusiva que os estudos pré-clínicos abrem novas pistas terapêuticas, o que faz com a mídia saia alarmando a sociedade com as promessas de cura.

É preciso também clarificar o viés implícito nos artigos ou matérias jornalísticas e combater a citação apenas de estudos que concordam com a conclusão do autor, gerando dogmas infundados.

A necessidade de forçar relações causais entre descobertas neurogenéticas e o ser humano tem trazido muitos prejuízos para a população, que não consegue ser informada mas apenas alarmizada, criando mais preconceitos. Apresentar as influências tanto genéticas quanto ambienais como deterministas pode trazer efeitos negativos desnecessários para as famílias, escolas, creches e abrigos. Muitas vezes, notamos durante o processo de adoção um olhar de preconceito das famílias adotantes para as crianças, respaldado pelas pesquisas científicas e matérias jonalísticas.

Publicar que uma certa porcentagem de determinada população de crianças está fadada a apresentar problemas (no presente ou no futuro) por conta de qualquer indicador genético ou de uma “única da influência ambiental”, precisa ser considerada uma posição ética e política. De outro modo, estaremos sempre fugindo da nossa responsabilidade como adultos de tornar o ambiente, este sim, mais favorável à criança e ao seu desenvolvimento.

 

Claudia MASCARENHAS Fernandes é psicanalista, coordenadora do Instituto Viva Infância e integrante do Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP)

 

Referências bibliográficas

Gonon F. (2013), La Psychiatrie biologique: une bulle spèculative? Revue Esprit, nov. 2011

Um comentário para “A responsabilidade é nossa

  1. Realizando um trabalho acadêmico e este artigo me auxiliou pois acredito na versão que o indivíduo “nasce bom”, “o meio” ao qual é exposto para convívio “é que o modifica”; e como tudo se firma a partir de uma base, “enxergo” à Escola como um espaço significativo de interferência (para quem os pais da atualidade tentam “empurrar” a responsabilidade de educar) e para que este espaço venham a obter sucesso participativo torna-se necessário sim às inserções de políticas públicas que só funcionam se contar com a COLABORAÇÃO CONSCIENCIOSA E COMPROMETIDA das práticas pedagógicas escolares, ou seja, da elaboração de Projetos Políticos Pedagógicos escolares que sejam integralmente aplicados e não só “depositados” como arquivo protocolar em qualquer gaveta e tudo isto se firmará gradativa e particularmente com a RESPONSABILIDADE SOCIAL de todos os envolvidos neste espaço acolhedor destes atores sociais e suas políticas públicas.

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