Brinquedoteca – fonte de infecção hospitalar?

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(Artigo por Ms. Rosely Prandi Perrone[1] e Dra. Maria Celia Malta Campos[2])

 

A Associação Brasileira de Brinquedotecas –ABBri – acerca gostaria de tecer alguns comentários acerca do artigo “Brinquedos em brinquedotecas como uma fonte de microrganismos patogênicos para as infecções hospitalares, de autoria de Sonia Regina Testa da Silva Ramos, publicado na Revista Paulista de Pediatria. Nossa intenção é discutir  a  proposição geral do texto citado e de contribuir com informações acerca dos procedimentos recomendados no tocante à segurança sanitária de brinquedos usados nos hospitais pediátricos.

A ABBri está comprometida com o aperfeiçoamento da Lei 11.104/2005 para que o processo de implantação de brinquedotecas em ambiente de saúde crie raízes e se expanda, com fundamentos de crescente qualidade, de acordo com os compromissos assumidos pela nação em relação aos direitos das crianças e dos adolescentes, em particular ao direito de brincar, em função da promoção de sua saúde física e psicológica e da melhor adesão aos tratamentos médicos.

Entretanto, constatamos reduzida aceitação da existência de espaços lúdicos nos ambientes de Saúde, sendo a questão da infecção hospitalar apontada frequentemente como justificativa. O número de brinquedotecas hospitalares, que havia aumentado significativamente entre os 2005 -2010, tem sofrido redução importante nos últimos cinco anos, fato constatado em levantamento recente, realizado pela Dra. Leila Peters da Universidade Federal de Santa Catarina.

A realidade que constatamos em nosso país é bastante grave pois se sabe que tanto a doença quanto a internação resultam em perdas para o desenvolvimento biopsicossocial da criança. Além de permanecer afastada de coisas de que gosta, ela também se encontra numa situação, muitas vezes, desconhecida, rodeada de pessoas as quais nunca viu, num clima de suspense e desinformação, o que aumenta suas fantasias e temores.

É neste sentido que a Brinquedoteca Hospitalar exerce uma função fundamental nas situações de adoecimento e hospitalização da criança ou do adolescente. Trata-se de uma estratégia importante e significativa, aliviando as experiências dolorosas, promovendo um movimento espontâneo renovador, compensando e reequilibrando o organismo após situações de tensão, frustração e conflito.

Alguns estudos evidenciam o risco de brinquedos causarem infecção. A maioria das bactérias encontradas pertence à microbiota ambiental e humana, não trazendo nenhum risco potencial para pessoas hígidas, porém podem ser potencialmente patogênicas para crianças hospitalizadas que geralmente se encontram imunocomprometidas. Por isso os autores sugerem que medidas preventivas devam ser tomadas, como a limpeza e desinfecção dos brinquedos diariamente ou frequentemente, para prevenir que infecções hospitalares ocorram. Sugere-se obedecer aos critérios adequados e normas estabelecidas no manual “Pediatria: Prevenção e Controle de Infecção Hospitalar”, da ANVISA, 2006 e também discutidas no livro “Brinquedoteca Hospitalar: Isto é Humanização”, organizado pelo Dr. Dráuzio Viegas e publicado pela Editora WAK em 2007.

A nosso ver, as questões problemáticas levantadas no artigo citado com respeito aos perigos de infecção hospitalar por meio de brinquedos e outros objetos utilizados no espaço hospitalar apenas reforçam a necessidade da presença de um profissional capacitado para a gestão, organização e manutenção da Brinquedoteca extremamente especializada que é a Brinquedoteca Hospitalar, a fim de assegurar a segurança sanitária além de promover a continuidade e a coerência de seu projeto ao longo do tempo.

Neste sentido, a ABBri  já avançou em suas ações e aguarda a votação de uma audiência pública requerida pela Deputada Federal Luiza Erundina, com o propósito de discutir a complementação da Lei 11.104/2005, incluindo, entre outros tópicos, a atuação do profissional brinquedista.

Cumpre ressaltar que, além dos cuidados com a desinfecção dos brinquedos e do espaço da Brinquedoteca, muitos outros aspectos necessitam ser desenvolvidos para que esse profissional possa exercer plenamente suas funções na promoção de um ambiente hospitalar humanizado e favorável à Saúde. Ressaltamos aqui o aprimoramento de postura ética e de atitudes relacionais positivas e respeitosas, envolvendo criança-família-equipe de Saúde, além de conhecimentos acerca do desenvolvimento infantil e domínio de recursos lúdicos diversificados. Ao mesmo tempo, é necessário que a Brinquedoteca Hospitalar tenha bem estabelecidas as normas de funcionamento e os procedimentos de higienização, visando prevenir possíveis casos de infecção cruzada.

Tendo em vista a necessidade dessa formação para contribuir com os processos de humanização hospitalar, particularmente no atendimento de crianças e adolescentes internados, a ABBri promove regularmente cursos para Organização de Brinquedotecas e atuação do Brinquedista em ambientes de Saúde.

Segue abaixo uma rotina para a higienização de brinquedos na Brinquedoteca Hospitalar:

Diariamente, antes de abrir, deve ser realizada a limpeza geral da Brinquedoteca com hipoclorito de sódio, água e detergente. Em seguida, deve ser passado álcool a 70% ou outro produto afim autorizado pela ANVISA, secando livremente. Somente após a limpeza a brinquedoteca deve ser liberada para a entrada das crianças e acompanhantes. Aos sábados deve ser realizada a limpeza terminal.

Antes de entrar na Brinquedoteca todas as pessoas devem passar álcool gel nas mãos, cujo suporte pode ser colocado ao lado da porta de entrada e em altura adequada para alcance de crianças, havendo inclusive um aviso na porta.

Todos os brinquedos utilizados devem ser higienizados diariamente, sendo que todos os materiais utilizados devem ser resistentes e de fácil higienização.

Os brinquedos a serem higienizados devem ser colocados em uma caixa plástica com tampa, identificada como MATERIAIS PARA HIGIENIZAÇÃO.

Os brinquedos devem ser lavados na pia da Brinquedoteca. O brinquedo deve ser colocado dentro da pia em água e sabão, sendo esfregado com escova. Após ser enxaguado, o álcool a 70% deve ser friccionado por três vezes e deixado para secar ao ar livre.

Os brinquedos utilizados por crianças que espirram, expelem secreção, ou ainda em caso de isolamento da criança, devem ser imersos por 30 minutos em uma caixa plástica em solução de hipoclorito de sódio. A seguir, devem ser lavados com água e sabão, enxaguados, friccionados com álcool a 70% e deixados para secar ao ar livre.

Os brinquedos utilizados por bebês ou crianças pequenas não devem ser compartilhados e após o uso devem ser higienizados conforme as normas estabelecidas.

Todos os livros da Brinquedoteca devem ser encapados com contact transparente e depois de utilizados devem ser higienizados com álcool a 70%.

PARA AS CRIANÇAS EM ISOLAMENTO

Deve-se utilizar uma pasta-catálogo plastificada onde constem as fotos e as descrições de todos os brinquedos para que escolham com o que desejam brincar. A pasta deve ser sempre manuseada pela Brinquedista que utilizará paramentação adequada para isolamento (luvas, avental e/ou máscara).

Após a escolha pela criança em isolamento, os brinquedos deverão ser levados ao quarto e depois do uso os mesmos devem ser levados para a Brinquedoteca, pela Brinquedista, em caixa plástica própria para brinquedos a serem higienizados.

Na Brinquedoteca, esses brinquedos devem ser imersos por 30 minutos em uma caixa plástica em solução de hipoclorito de sódio. A seguir, devem ser lavados com escova, água e sabão, enxaguados, friccionados com álcool a 70% e deixados para secar ao ar livre.

[1] Rosely Prandi Perrone.  Mestre em Psicologia da Saúde, psicóloga clínica e hospitalar, pós-graduada em Psicologia Hospitalar em Cardiologia. Coordenadora do Serviço de Psicologia Hospitalar e da Terceira Idade da Secretaria da Saúde de São Caetano do Sul/SP. Docente em cursos de Aleitamento Materno e Método Mãe Canguru. Atuação na área de Saúde com ênfase em gestantes, bebês prematuros, UTIs e cardiologia. Membro do Conselho da Associação Brasileira de Brinquedotecas. E-mail: roseprandi@hotmail.com

[2] Maria Celia Rabello Malta Campos. Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, pedagoga e psicopedagoga clínica, consultora escolar, pesquisadora na área de Jogos e Desenvolvimento, docente e supervisora de estágios em cursos de especialização em Psicopedagogia, autora e organizadora de publicações nos temas: Avaliação Psicopedagógica, Oficinas de Jogos na formação docente, Jogos na avaliação e intervenção em processos de aprendizagem, entre outros. Participa do GT Brincar da RNPI como representante da Associação Brasileira de Brinquedotecas (ABBri), da qual é atual presidente (2014-2016).  Email; mc.malta @globo.com

Um comentário para “Brinquedoteca – fonte de infecção hospitalar?

  1. Gostei muito do artigo, uma vez que trabalho em um hospital e tenho essa preocupação quanto a existência de uma brinquedoteca e sua higienização. Infelizmente, esbarramos na falta de empenho dos gestores na manutenção , alegando falta de pessoal e de verbas para que seja mantida com todas as formas de higiene e de segurança para os pequenos.

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