Crianças do Grande Mucuripe participam de atividades educativas sobre direito à cidade e ao meio ambiente de qualidade

A iniciativa da Ação Olhares Eco Protetores (Instituto da Infância, RNPI, ANDI e Petrobras) beneficiou meninos e meninas atendidos pelo Instituto Povo do Mar – IPOM e pelo Centro Comunitário Santa Terezinha (SPS-CE)

Entre os dias 20 de agosto e 10 de setembro, crianças que moram no Grande Mucuripe, em Fortaleza (CE), participaram de atividades educativas sobre o direito à cidade e ao meio ambiente de qualidade. A iniciativa da Ação Olhares Eco Protetores (realizada pelo Instituto da Infância – Ifan, em parceria com a Rede Nacional Primeira Infância (RNPI), ANDI – Comunicação e Direitos, e patrocinada pela Petrobras) promoveu oficinas, plantio de mudas de árvores, pintura de grafites e colóquio para os cuidadores de crianças atendidas pelo Instituto Povo do Mar – IPOM e pelo Centro Comunitário Santa Terezinha (SPS-CE).

Ao todo, 32 meninos e meninas (10 do IPOM e 22 do C.C. Santa Terezinha) participaram das chamadas oficinas Caminhos Lúdicos do Grande Mucuripe. Com idades entre 4 e 11 anos, as crianças aprenderam sobre seus direitos, mais especificamente sobre o direito que possuem de morar em cidades seguras, arborizadas e lúdicas.

Segundo Alana Aragão, gerente do Projeto Primeira Infância é Prioridade/Ação Olhares Eco Protetores e facilitadora das oficinas, a parceria com instituições da Praia do Futuro e do Vicente Pinzón foi uma estratégia para potencializar a colaboração entre organizações com propósitos em comum. “Tanto o Centro Comunitário Santa Terezinha, quanto o Instituto Povo do Mar se mostraram muito receptivos à proposta. Acredito no potencial de agregar novas perspectivas às crianças, respeitando o caminhar que vem sendo trilhado com as iniciativas das quais elas já fazem parte”, explicou.

Para Luzia Laffite, psicóloga e superintendente executiva do Instituto da Infância, levar às crianças em fase de primeira infância o conhecimento sobre seu direito a cidades e meios ambientes de qualidade é sinônimo de “fazê-las se apropriarem de uma vida saudável no contexto mais amplo da palavra: físico, mental e social. E, assim, elas podem crescer em harmonia consigo mesmas e com os outros”.

Silvia Valente, gerente pedagógica do IPOM, conta que a organização aceitou o convite por compreender que toda ação de garantia de direitos em prol da infância precisa ser fortalecida. “Baseando-se na missão de transformar vidas com amor, nós acolhemos a ação do Ifan, proporcionando aos educandos novas aprendizagens e favorecendo o seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional”, comentou.

Para Sandra Luna, assistente social e supervisora do Centro Comunitário  Santa Terezinha, foi uma satisfação atuar junto ao Instituto da Infância: “A gente ficou muito feliz com essa parceria com o Ifan. É um Instituto muito envolvido com a questão da primeira infância, e isso é muito bacana. A gente procura estreitar os laços, as parcerias que são muito bem-vindas”.

Metodologia adaptada para a pandemia

Devido à necessidade de obedecer normas sanitárias para prevenir a contaminação pelo coronavírus, as oficinas Caminhos Lúdicos do Grande Mucuripe tiveram sua metodologia adaptada. Em vez de formato 100% presencial, foram realizadas, com cada instituição, uma oficina remota (online) e outra presencial, adotando cuidados como o uso de máscaras e disponibilização de álcool em gel para as crianças.

Nos encontros online, realizados em 20 e 26 de agosto, as crianças ouviram contação de história, fizeram passeio aéreo pelas ruas de seus bairros – com auxílio da ferramenta virtual Google Maps – e responderam questionário oral com perguntas sobre o trajeto que fazem de casa até o posto de saúde que frequentam com familiares quando precisam de atendimento médico. O objetivo da “entrevista” foi conhecer as experiências positivas e negativas vividas pelas crianças dentro de um percurso urbano comum em seu dia a dia.

Produção de camisetas “Esse é o Grande Mucuripe dos meus sonhos”

As oficinas presenciais foram realizadas nas sedes do IPOM e do Centro Comunitário Santa Terezinha, nos dias 1º e 03 de setembro, respectivamente. As turmas de meninos e meninas aprenderam a diferença entre seus direitos e deveres, e, com base nas conversas da etapa online, foram convidadas a produzir desenhos que representassem como gostariam que fossem os espaços públicos dos bairros onde moram.

Na sequência, as crianças transferiram seus desenhos para camisetas personalizadas com a frase “Esse é o Grande Mucuripe dos meus sonhos”. Árvores, flores, pássaros e mar foram elementos recorrentes nas produções dos pequenos. Ao ser perguntada sobre por que havia bastante verde em seu desenho, Lunna Heloise Rodrigues (7), do IPOM, respondeu: “Porque eu gosto da natureza, e eu sei que sem a natureza os humanos não vivem, não conseguem respirar. O nosso ar fica muito poluído sem ela”.

Flávia Lourenço Nascimento (10), do C.C. Santa Terezinha, incluiu urnas de coleta seletiva na paisagem que desenhou. “O material reciclável não pode faltar nas ruas por causa que, se não tiver, o meio ambiente fica muito sujo e as plantas morrem, e as plantas são o nosso ar”, expressou. A menina também pintou uma árvore, “passarinhos voando com saúde” e nuvens.

Silvia Valente acompanhou o envolvimento dos meninos e meninas do IPOM da atividade online até o encontro na sede do Instituto. Para ela, “cada etapa foi muito significativa, despertando neles o criar e recriar, trabalhando as emoções, os valores, promovendo aprendizados, integração e lazer. Favoreceram a criatividade, dando ênfase no cotidiano e nas belezas do bairro no qual eles estão inseridos”.

Segundo Alana Aragão, a intenção da atividade foi que as crianças pudessem compreender de forma lúdica os direitos que possuem, podendo experienciar, na prática, a materialização de suas propostas para o Mucuripe dos sonhos delas. A sociedade de hoje, comentou Luzia Laffite, é altamente adultocêntrica, de forma que o “ser criança” e o “estar criança” se dão sob a condição subjetiva do que o adulto julga ser melhor ou pior. “Quando damos possibilidades de a criança nos dizer o que ela gostaria para si, para sua família, para sua comunidade, para o ambiente de seu território e, mais amplamente, para a cidade, estamos lhe oferecendo uma opção de escolha. Mais do que isto, é uma chance dela entender melhor suas potencialidades e necessidades e, aí sim, nós podemos traçar ações que vão ao encontro de sua vida”, defendeu.

Sandra Luna garante que a turma do C.C. Santa Terezinha ficou satisfeita com a realização: “As crianças e suas famílias ficaram felizes, então esse foi um momento muito bacana de agregar essas atividades às nossas ações, porque elas realmente agregam”.

Intervenções: pintura de grafites e plantio de mudas 

Para marcar o ciclo na lembrança de todos, a Ação convidou grafiteiros para produzirem, nas sedes das duas instituições, murais inspirados nos desenhos que as crianças fizeram nas oficinas presenciais. Nos dias 08 e 10 de setembro, os artistas Spote, Jambo e Bullan reproduziram o compilado de traços e cores em paredes do Instituto Povo do Mar e do Centro Comunitário Santa Terezinha, respectivamente. O trabalho foi realizado sob olhares curiosos e entusiasmados das crianças.

Spote contou que, à medida que os meninos acompanhavam as pinturas, iam reconhecendo seus desenhos. “Esse momento foi surpreendente. Eu estava pintando e eles chegaram fazendo aquela festa, apontando ‘Esse é o meu, esse é o meu!’. Foi muito gratificante ver que estava dando certo, que elas conseguiram identificar seus próprios desenhos”, relatou.

Dandara Vitória Nascimento de Souza (8), do IPOM, disse ter gostado muito da ideia e explicou: “Porque o que nós desenhamos está sendo agora desenhado e está se mostrando para todo mundo”. Ana Mikelly Gomes Miranda (8), também do IPOM, reconheceu na parede da “surfhouse” (espaço pedagógico do IPOM) o desenho de sua bonequinha e compartilhou: “Estou muito emocionada, amei tudo, tudo, tudo. Estou muito feliz! Eu quero muito agradecer ao Projeto Primeira Infância e ao IPOM, que me ensinaram muito!”.

Segundo Spote, pintar exatamente como uma criança não é uma tarefa comum, nem fácil. “É uma nova experiência. O traço da criança pode parecer simples, mas ele tem uma sutileza que só a criança mesmo é quem dá. Você tem que ser criança para fazer, então a gente tenta chegar o mais próximo possível”. Para o artista, o trabalho foi um resgate de sua própria infância, ele disse ter lembrado do tempo em que começou a pintar. “Às vezes uma pessoa fala ‘Ah, você é um grande artista!’, mas não é nada disso. Nós (grafiteiros) somos somente crianças que não pararam de desenhar”, refletiu.

Como complemento, a Ação Olhares Eco Protetores promoveu a participação das crianças no plantio de mudas nas sedes das duas entidades. No Instituto Povo do Mar, a atividade foi orientada pelo educador ambiental Bruno da Silveira. Para ele, a oportunidade de entrar em contato com a terra ainda na infância, tocando-a e cultivando uma vida, promove nas crianças o sentimento de fazer parte do “todo”. “Um pertencimento que contribui na formação de cidadãos mais conscientes sobre o meio à sua volta, de agentes transformadores para um ambiente cada vez mais sustentável”, afirmou.

Acolhimento e escuta dos cuidadores

O ciclo de atividades também contou com um momento dedicado aos cuidadores das crianças. No Centro Comunitário Santa Terezinha, enquanto os pequenos participavam da oficina, mães, tias e avós integraram um colóquio para conversar sobre as dificuldades no acesso das crianças a uma cidade de qualidade e a um meio ambiente equilibrado.

Em apoio à equipe da Ação Olhares Eco Protetores, Lorena Silveira, cientista social e colaboradora do Ifan, conduziu a atividade. O grupo dançou uma ciranda cuja letra evocava o senso de coletividade e assistiu à websérie “Infâncias, Cidade e Meio ambiente” (produção documental realizada este ano pela Ação). Por último, as cuidadoras participaram de uma dinâmica chamada “árvore situacional”. Nela, foi pedido que as cuidadoras indicassem desafios e problemas na interação diária das crianças com o espaço urbano do Vicente Pinzón, bem como suas causas e possíveis soluções.

“Elas demonstraram interesse em dar opiniões. Havia mulheres de idades diferentes, umas mais ‘senhoras’, que já devem ter visto e ouvido muita coisa nesta vida, mas todas traziam consigo as vivências das dificuldades cotidianas e um entendimento do que é o melhor para as crianças, e, consequentemente, para todo o bairro”, compartilhou Lorena.

Para a dona de casa Patrícia da Silva de Sousa, mãe de Nicolly (8) e Emanuelly (6), a atividade deveria acontecer mais vezes, pois demonstrou preocupação com a infância da região. Patrícia citou a falta de interesse por parte do poder público como uma das conclusões a que o grupo de mulheres chegou no colóquio: “Se os nossos governantes fossem mais abertos ao diálogo, a sentar com os pais, a irem até as escolas para saber a opinião das crianças, eu acho que a gente poderia, sim, fazer uma diferença muito grande. Mas como não há interesse, é por isso que a gente está onde está agora”.

Para a moradora do Vicente Pinzón, faltam, no bairro, áreas de lazer e estrutura para que os pais possam levar os filhos à escola com segurança: “Na comunidade não tem mais calçada, as pracinhas que existem estão todas quebradas e, quando constroem alguma coisa, os próprios moradores quebram”.

Sobre o Projeto Primeira Infância é Prioridade

O Projeto Primeira Infância é Prioridade nasceu em 2019, quando a Petrobras firmou o compromisso com a ANDI – Comunicação e Direitos (Secretaria da Rede Nacional Primeira Infância, RNPI) de patrocinar gestores e técnicos de instituições que atuam na rede de proteção a crianças e adolescentes em 100 municípios brasileiros.

Uma das frentes de atuação do Projeto é a realização de oficinas e campanhas com cuidadores e educadores em comunidades geograficamente situadas próximas a áreas de operação da Petrobras. Portanto, é devido ao funcionamento da Refinaria Lubrificantes e Derivados do Nordeste (Lubnor) no bairro do Mucuripe, em Fortaleza, que a região do Grande Mucuripe foi escolhida para receber atividades do Projeto, por meio de um dos seus braços, a Ação Olhares Eco Protetores. Desde 2019, com execução do Instituto da Infância, a Ação vem promovendo encontros com famílias para abordar cuidados parentais, a prevenção à violência doméstica e os direitos das crianças.

Sobre as instituições envolvidas no ciclo de atividades:

Instituto da Infância – Ifan

Desde 1999, o Instituto da Infância – IFAN é uma organização sem fins lucrativos e independente que desenvolve ações de prevenção e cuidados à infância de crianças de 0 a 12 anos no Nordeste brasileiro. Com ética, transparência e diálogo, o IFAN gera e compartilha conhecimentos inovadores sobre as infâncias, atuando em parceria com o Terceiro Setor, em âmbito nacional e internacional, o poder público e a iniciativa privada para desenvolvimento de seus programas e projetos.

Instituto Povo do Mar – IPOM

Criado em 2010, o Instituto Povo do Mar é uma organização sem fins lucrativos idealizada por quatro amigos surfistas, frequentadores da praia do Titanzinho, em Fortaleza. Com sede na Praia do Futuro, atende crianças e adolescentes, de cinco a dezessete anos, em situação de vulnerabilidade social, dos bairros Serviluz e Praia do Futuro. Ao todo, são 450 beneficiários participando de atividades diariamente no Instituto.

Centro Comunitário Santa Terezinha

O Centro Comunitário Santa Terezinha é uma unidade de execução direta da Coordenadoria de Proteção Social Básica e Segurança Alimentar e Nutricional da SPS-CE (Secretaria de Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos do Governo do Estado do Ceará). Atende crianças e adolescentes do Vicente Pinzón com oficinas de esporte (75 alunos de karatê) e de arte (45 alunos de balé). Também promove cursos profissionalizantes para pessoas a partir de 16 anos, beneficiando, desta forma, as famílias do bairro como um todo.

Fonte: IFAN

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