Espetáculo Meninos da Guerra é lançado em vídeo online

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Enquanto os arrastões no Rio voltam ao noticiário nacional, como um manifesto da pobreza de linguagem incompreensível para “os que podem ter as coisas boas do mundo”, chega ao alcance do grande público o vídeo do espetáculo Meninos da Guerra,  perpetuando o seu conteúdo de teatro-denúncia e expondo a realidade de meninos e meninas cujo destino é a rua. O vídeo feito pela Comova Movie Theather registra a última apresentação da peça no Teatro Garagem, em Brasília. Foi lançado na última semana no Cine Cultura em sessão especial para convidados e em seguida publicado em https://www.youtube.com/watch?v=kIPUc38mANk .

Dezessete em cena, junto com outros quatro atores profissionais, impressionam pela atuação de qualidade e total veracidade, uma vez que vivem suas próprias personagens e histórias, ou dos colegas que não tiveram coragem para tanto. A narrativa de autoria do dramaturgo e diretor Carlos Laredo é estruturada em uma série de cenas curtas e independentes, enriquecidas com a contribuição da atriz Lívia Fernandez, professora de teatro para meninos em situação de acolhimento institucional.

A força dramatúrgica do texto é o motor do espetáculo, com suas cenas muitas vezes chocantes mas bem ao contrário das que a TV mostra com os arrastões e os arrastados, porque explicita a origem da violência, física e psicológica dessa população à margem da sociedade. A dramaturgia deMeninos da Guerra cresce ainda mais com a plasticidade minimalista do cenário e figurinos despojados, uma trilha sonora de bom gosto e metáforas embutidas em adereços recorrentes vezes empregados, como máscaras e tênis.

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Símbolo cênico por excelência, as máscaras lá não reforçam a tradição binária tragédia-comédia. Traduzem, isso sim, a real expressão facial, de seriedade, dos meninos − pois as possibilidades ainda estão por se definir em suas vidas, mesmo que o chão batido e o sinalizado sejam o da tragédia. Objeto do desejo de todo adolescente rico ou pobre, o tênis se configura quase numa personagem auto-explicável nas várias cenas em que é perseguido, usado, manuseado ou exposto enfaticamente. Na cena de uma pelada, por exemplo, funciona como bola mas também como tênis-chuteira para meninos e cuidadores do abrigo, amantes do futebol como todos os de qualquer classe social.

Outra sensível e bem colocada metáfora é o muro, único elemento em forma de telão que caracteriza o cenário, onde são projetadas imagens que criam o ambiente pertinente às pequenas histórias interpretadas ou relatadas. O “muro”, símbolo real de apartheid em diversas culturas do mundo moderno, representa ali a linha divisória invisível aos olhos dos privilegiados em relação aos que nada possuem, significando portanto o dinheiro que gera tantos malefícios em sociedade.

Nesse último espetáculo da temporada, felizmente gravado pelo diretor da Comova, Gustavo Amora, algumas cenas ainda trazem revelações inéditas e inesperadas, feitas por alguns meninos. Ficou claro para o grupo todo que, após tantos ensaios e apresentações, os traumas e conflitos dos dramas reais ali interpretados se destravaram, provocando neles o impulso de contar a verdade, até então não de todo posta no palco.

Uma é a cena em que a menina decide ligar para a mãe que a maltratou na infância, que a culpou injustamente pela morte do irmão bebê e a abandonou à própria sorte ainda criança. “Mãe, apesar disso tudo, eu te amo e te perdoo”, ela diz aos prantos, ao final de um monólogo espontâneo no lugar do original decorado. A cena causou surpresa e comoção nos mais de 20 integrantes da trupe, e está lá, registrada no vídeo.

Meninos da Guerra é portanto muito mais que um espetáculo teatral. É um documento verdadeiro e de intenso conteúdo social, que merece ser visto amplamente por quem já foi (e também por quem ainda não foi) assaltado por menores de rua e pensa que sabe tudo dessa “crueldade” contra si, mas que, na verdade, não conhece da missa um terço sobre o perverso mundo em que se vive.

(Informações e fotos: La Casa Incierta /Angélica Torres Lima)

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