04 de maio de 2026

28 de maio, Dia Nacional do Brincar: como contribuir para a garantia do direito ao brincar e incluí-lo nas práticas cotidianas do atendimento à primeira infância?

Na RNPI, o tema será lembrado com um webinário no dia 26/05, em parceria com a REPI-SP, para oferecer caminhos práticos e inspirar ações a médio e longo prazo

Este ano o 28 de maio será especial no Brasil. O país celebra, pela primeira vez, o Dia Nacional do Brincar, instituído no calendário oficial pela lei Nº 15.145, que reconhece a data já comemorada internacionalmente. A lei determina que sejam intensificadas ações setoriais e intersetoriais, com o objetivo de chamar a atenção da população e de entidades de atendimento, públicas e privadas, além de promover conscientização sobre os benefícios proporcionados ao desenvolvimento na primeira infância.

Na RNPI, o tema será lembrado com um webinário no dia 26/05, promovido em parceria com a Rede Estadual Primeira Infância de São Paulo, com o objetivo de inspirar ações a médio e longo prazo. A proposta é oferecer caminhos práticos para que o brincar seja incluído como estratégia cotidiana de relação com as crianças, para além de uma ação pontual.

Para refletir sobre a importância deste marco no calendário nacional e sobre o papel do brincar no desenvolvimento integral, em especial na primeira infância, conversamos com Patrícia Camargo, educadora com especialização em neurociência e desenvolvimento infantil, sócia do Tempojunto e integrante do Grupo Diretivo da REPI-SP, na entrevista que você confere a seguir:

Este ano o 28 de maio será, pela primeira vez, oficialmente celebrado como Dia Nacional do Brincar no Brasil, uma determinação da Lei Nº 15.145, que institui no país a data já reconhecida internacionalmente. Qual a relevância deste marco no calendário nacional e como a lei contribui para a garantia do direito ao brincar?

A instituição do Dia Nacional do Brincar, agora reconhecida pela Lei nº 15.145, é um marco importante porque desloca o brincar do campo do “opcional” para o campo do direito e, sobretudo, do interesse público. Quando uma data entra oficialmente no calendário nacional, ela abre espaço para algo decisivo: mobilização. Mobilização de governos, escolas, organizações sociais, empresas e, principalmente, da sociedade, por meio de ações de comunicação e conscientização mais amplas e consistentes.

Na prática, isso significa mais campanhas, mais debates públicos, mais conteúdos circulando e mais famílias sendo convidadas a olhar para o brincar com outra lente. E esse ponto é central, porque ainda existe um entendimento equivocado de que brincar é “perda de tempo”, “coisa sem importância” ou apenas uma atividade menor, sem intencionalidade. Ao ganhar visibilidade institucional, o brincar passa a ser reposicionado como aquilo que de fato é: a principal linguagem da criança e a base do seu desenvolvimento.

A lei também contribui para ampliar a compreensão de que o brincar não é importante apenas para as crianças. Em um contexto social marcado por estresse, sobrecarga e adoecimento mental, o brincar pode ser uma experiência potente de reconexão também para os adultos. Brincar com uma criança, ou permitir-se momentos de leveza, criatividade e presença, ajuda a reduzir níveis de estresse, fortalece vínculos afetivos e amplia a sensação de bem-estar. Não por acaso, hoje já há um conjunto consistente de evidências relacionando o brincar a aspectos de saúde mental e qualidade de vida.

Por fim, talvez um dos efeitos mais importantes desse reconhecimento oficial seja simbólico, mas profundamente necessário: ajudar a reduzir o preconceito histórico em torno do brincar. Durante muito tempo, brincar foi associado a algo pouco sério, quase um “intervalo” daquilo que realmente importa. Ao instituir o Dia Nacional do Brincar, o país afirma o contrário: brincar é coisa séria, sim. É estruturante do desenvolvimento humano, é direito garantido e é responsabilidade coletiva.

Qual a importância e o papel do brincar no desenvolvimento integral das crianças, sobretudo durante a Primeira Infância?

Quando falamos em desenvolvimento, estamos falando de aspectos muito concretos. É na brincadeira que a criança organiza o pensamento, resolve problemas, constrói linguagem, desenvolve coordenação motora, aprende a negociar regras, a lidar com frustrações e a se relacionar com o outro. 

Uma criança que brinca de faz de conta, por exemplo, está exercitando imaginação, linguagem e compreensão social. Ao subir, descer, correr ou equilibrar-se, ela está desenvolvendo seu corpo e sua percepção espacial. Ao brincar com outras crianças, aprende sobre cooperação, conflito e pertencimento. Não há desenvolvimento integral na infância sem brincar.

Como instituições voltadas às infâncias e órgãos públicos que trabalham com o atendimento a crianças podem incluir o brincar em suas práticas cotidianas, inclusive numa perspectiva intersetorial?

Incorporar o brincar nas práticas cotidianas, especialmente em uma perspectiva intersetorial, é, antes de tudo, reconhecer que ele não é uma atividade acessória, mas uma estratégia potente de cuidado, desenvolvimento e vínculo. Quando essa compreensão atravessa diferentes políticas públicas, o brincar deixa de estar restrito à escola ou ao “tempo livre” e passa a qualificar o atendimento à criança em diversas áreas.

A experiência do Tempojunto, dialogando com diferentes contextos, mostra que isso é possível e já acontece de forma concreta.

Um primeiro exemplo vem da área de nutrição e alimentação infantil. Em equipamentos públicos como unidades básicas de saúde, creches e programas de orientação alimentar, o brincar pode ser integrado como estratégia de educação nutricional. Em vez de abordagens apenas informativas, é possível propor experiências sensoriais com alimentos — explorar cores, texturas, cheiros; montar pratos de forma lúdica; contar histórias com os ingredientes. Já vimos práticas em que crianças participam de “brincadeiras de feira”, organizando e nomeando alimentos, ou de pequenos preparos coletivos, que ampliam o vínculo com a comida e favorecem a aceitação alimentar. Esse tipo de abordagem reduz a resistência, fortalece a autonomia da criança e aproxima as famílias de uma melhor relação com a alimentação.

No campo do urbanismo, a experiência recente do Tempojunto com a Coalizão Urban95 Habitação mostra como o brincar pode ser incorporado de forma estruturante nas políticas de moradia. Em iniciativas como as oficinas com construtoras em Sergipe, dentro do Programa Casa Sergipana, o brincar foi utilizado como metodologia para ampliar o olhar técnico sobre os empreendimentos: ao propor que adultos experimentassem processos lúdicos com materiais não estruturados, foi possível deslocar o foco dos projetos de uma lógica centrada apenas na unidade habitacional para uma visão mais integrada do território. A partir dessa vivência, surgiram soluções concretas, com caminhos seguros e sombreados, espaços de convivência que acolhem famílias, áreas que estimulam encontros e autonomia, e elementos que conectam as crianças à identidade local. Esse tipo de abordagem evidencia que planejar cidades a partir da experiência das crianças pequenas não é simplificar o urbanismo, mas qualificá-lo: quando o brincar entra como critério de projeto, ele contribui diretamente para a construção de ambientes mais seguros, vivos e favoráveis ao desenvolvimento e ao bem-estar coletivo.

Um terceiro exemplo fundamental está nas instituições de acolhimento de crianças vítimas de violência. Nesses contextos, o brincar assume um papel ainda mais sensível e estruturante. Ele pode ser uma linguagem de expressão para crianças que, muitas vezes, não conseguem verbalizar suas experiências. Práticas baseadas no brincar livre, com a presença de adultos preparados para observar e escutar, favorecem a elaboração emocional e ajudam a reconstruir a sensação de segurança e a restabelecer vínculos de confiança. O Tempojunto já abordou, em diferentes conteúdos, a importância de garantir espaços e tempos de brincar mesmo em contextos de alta vulnerabilidade, justamente porque o brincar é uma forma de a criança retomar o controle sobre sua experiência e reorganizar o mundo interno.

Esses exemplos mostram que a intersetorialidade não é apenas uma diretriz abstrata. Ela se concretiza quando diferentes áreas passam a enxergar o brincar como parte da solução. Nutrição, urbanismo, assistência social, saúde: todos podem, e devem, incorporar o brincar como linguagem transversal. Porque, quando o brincar entra, o cuidado se amplia, o vínculo se fortalece e o desenvolvimento acontece de forma mais integral.

A RNPI e a Rede Estadual Primeira Infância de São Paulo vão promover, no dia 26 de maio, um webinário sobre o tema do brincar. Qual o objetivo e o formato do encontro e como esta conversa pode colaborar para o fortalecimento da pauta e para a mobilização de ações e projetos?

O webinário promovido pela RNPI e pela REPI-SP nasce com um objetivo bastante claro: sair do campo da sensibilização genérica e avançar para o campo da ação concreta. Mais do que reforçar por que o brincar é importante, algo que boa parte do público já reconhece, o encontro foi desenhado para responder à pergunta “como fazer?”. Ou seja, como incorporar o brincar, de forma contínua, nas práticas das instituições que atendem a Primeira Infância, seja na educação, na saúde, na assistência ou na gestão pública. O formato foi pensado para favorecer esse movimento: um encontro enxuto, com apresentação objetiva seguida de um tempo significativo de interação, permitindo troca direta com quem está na ponta. Além disso, a estratégia inclui a produção de pílulas curtas de vídeo, antes e depois do evento, ampliando o alcance da mensagem e ajudando a “furar a bolha” dos públicos já engajados .

O ponto mais relevante, no entanto, é o posicionamento do webinário como mobilizador de médio e longo prazo. Ele não se encerra na Semana Mundial do Brincar, que este ano vai de 23 a 31 de maio. Pelo contrário, parte dela como impulso para continuidade. A proposta é oferecer caminhos práticos para que o brincar seja incorporado como ferramenta cotidiana de relação com as crianças, e não apenas como uma ação pontual de calendário. Isso inclui compartilhar experiências aplicáveis, dar visibilidade a iniciativas que já funcionam em diferentes territórios e inspirar adaptações possíveis em outros contextos. Ao fazer isso, o webinário contribui diretamente para fortalecer a pauta do brincar como política pública e prática institucional, deslocando-a de uma lógica episódica para uma lógica estruturante. Em outras palavras, ajuda a garantir que o brincar não seja assunto de uma semana, mas uma presença constante na forma como a sociedade cuida, educa e se relaciona com suas crianças.

(Foto: Drika Trevisan)

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