08 de abril de 2014
A importância do saneamento para a saúde da criança
No Dia Mundial da Saúde, o saneamento básico é pauta fundamental para discussões de interesse público. Dentre as várias implicações embutidas no tema, está a saúde de milhões de crianças no Brasil e no mundo. Crianças que, muitas vezes, vivem sob condições de vulnerabilidade constante, expostas, entre outras tantas, a doenças digestivas, infecciosas, respiratórias que, em muitos casos, podem levar à morte. Mesmo com todos os avanços no saneamento, os pequenos ainda fazem parte de um cenário que necessita cada vez mais de orientação, cuidado e ações efetivas.
É o que afirma João Augusto Figueiró, médico psicoterapeuta do Centro Multidisciplinar de Dor do Hospital das Clínicas da USP, membro fundador, presidente e diretor científico do Instituto Zero a Seis – Primeira Infância e Cultura de Paz. Segundo ele, a importância do saneamento na infância é capital, nuclear. Um dos motivos é que, diferentemente de um adulto, a imaturidade dos sistemas de defesa do corpo da criança a torna alvo fácil para diversas enfermidades.
A precariedade do saneamento, afirma o médico, prejudica todos os seres humanos, mas o público mais afetado é o das crianças. “As infecções digestivas e respiratórias são muito mais abundantes quando não há saneamento, até pela própria contaminação do ambiente em que a criança vive”. Além disso, acrescenta, as crianças, pelo seu tamanho, estão muito mais em contato com o solo do que os adultos. Muitas andam descalças, tropeçam, caem, colocam as mãos no chão.
De acordo com Figueiró, além das infecções bacterianas e virais, a falta de saneamento também aumenta a incidência de doenças causadas por fungos. Nos países onde o saneamento não é adequado, ele afirma, esta é uma causa de morte importante. Mortes que poderiam ser evitadas. Para ele, poder público e mídia podem ser mais atuantes no sentido de reverter essa realidade, através da promoção de mais campanhas pela saúde, prevenção de doenças ou redução de fatores de risco, orientando a população a respeito de algumas condutas simples.
O médico explica que alguns cuidados simples podem ajudar na saúde das crianças, como lavar as mãos cinco vezes ao dia, antes das três principais refeições, na higienização após a evacuação e ao acordar. “Isto promove uma significativa redução das infecções e, consequentemente, da mortalidade infantil. Há importantes trabalhos realizados pelo mundo, principalmente na Índia, que mostram isso”. Ferver a água, utilizar filtros para que a água possa ser limpa, são outras medidas que poderiam contribuir para a melhoria das condições da saúde infantil no país. A falta de cuidado com a saúde bucal também é fator preocupante. “Quando a criança não tem uma boa higiene bucal, ela acaba tendo problemas, como cáries, fraturas de dentes, gengivites e uma serie de complicações na cavidade oral que facilitam quadros de infecção, às vezes, generalizados”.
Contaminação
No segundo semestre de 2013 foi divulgada uma pesquisa que aponta que 40 milhões de brasileiros, habitantes de 20 capitais consomem água que mesmo atendendo aos requisitos do Ministério da Saúde, ainda está abaixo da qualidade necessária para a saúde. O trabalho realizado em mananciais e na água que sai das torneiras pelo Instituto Nacional de Ciências e Tecnologias Analíticas Avançadas (INCTAA), do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, revela uma grande quantidade de substâncias nocivas à saúde dos seres humanos e que podem comprometer, inclusive, o seu sistema hormonal.
Sobre a pesquisa, Figueiró explica que as quantidades tóxicas de metais pesados, como chumbo e mercúrio, são lesivas para o sistema nervoso tanto adulto como infantil. No entanto, os danos são maiores para o desenvolvimento cerebral das crianças. “Elas estão em período de neuroconstrução. Estão construindo o cérebro e quanto menores elas são mais intensa é essa construção”.
De acordo com o médico, a contaminação da água a partir de hormônios femininos – também apontado na pesquisa – podem trazer sérios problemas para meninos e meninas. As pílulas anticoncepcionais quando excretados com a urina da mulher vão parar nos lençóis freáticos, assim como dezenas de agrotóxicos, utilizados nas lavouras.
A ingestão de água contaminada por hormônios como pontua Figueiró, causa alterações no sistema imunológico de qualquer ser humano, mas o efeito nas crianças é pior. “A água contaminada por esses hormônios femininos podem acarretar uma puberdade precoce. As meninas podem sofrer as consequências de algo artificial que não faria parte da sua natureza naquele momento do seu desenvolvimento. Nos meninos pode provocar aumento do volume da mama e favorecer o surgimento de câncer”.
A criança e o meio ambiente
Figueiró acredita que houve avanços significativos em relação à consciência ambiental que se tem hoje e a que se tinha cinco, seis décadas atrás. Mas essas evoluções ainda são indubitavelmente, segundo ele, insuficientes. Neste sentido, as escolas podem ter um papel decisivo a partir do momento que a criança começa a frequentar o ambiente estudantil. O médico, porém, alerta para que haja cuidado nas práticas de ensino para não gerar pânico ou preocupações excessivas para os pequenos. “Eles precisam ser educados nessa direção, mas não pode recair sobre eles o ônus da solução. Isso frequentemente acontece. Quando se mostra essa situação trágica, dramática, as crianças ficam apavoradas e trazem para si a responsabilidade pela melhoria”, ressalta.
Ele cita um exemplo que pode ser percebido no ambiente familiar composto por crianças pequenas. Elas são orientadas a fechar a torneira quando escovam os dentes. A gastar pouca água durante o banho. Ficam preocupadas.
Ao mesmo tempo, aponta ele, temos Estados no Brasil em que as linhas de transmissão da água, desperdiçam cerca de 70% do volume de água transportada. Outros Estados têm perda durante a transmissão na tubulação de 40%, são grandes volumes transportados. “Claro que é importante a educação ambiental. É fundamental as crianças terem consciência, mas isso deve ser feito com cautela, sem aterrorizá-las e sem transferir para elas a responsabilidade da solução. É injusto com um ser humano imaturo como são as crianças que isso seja feito dessa forma. Isso é temerário”.
O trabalho do engenheiro ambiental
Sobre a relação do engenheiro ambiental e seu envolvimento social, Figueiró acredita que essa preocupação ainda não tem o destaque necessário, dada a gravidade das consequências. Para ele, tanto nos anos de formação acadêmica dos engenheiros como em cursos de pós-graduação na especialização destes, a importância do tema ambiental e da contribuição deste profissional nessa direção deve ser bastante reforçada. “Tem que chamar a atenção e oferecer treinamento, formação, atrair mais engenheiros para essas questões. Nós estamos vivendo numa encruzilhada que é este tipo de evolução, de processo, de desenvolvimento. Esse rumo que a humanidade tomou. Com a população que temos hoje, este processo é insustentável. Tem coisas que vão acontecer a curto, outras a médio prazo”, acredita. Os cenários previstos, ressalta ele, não são favoráveis. É preciso repensar as atitudes. E esses profissionais envolvidos devem ser cada vez mais capacitados para fazer contribuições mais efetivas.