16 de agosto de 2012
Escola em Cotia aposta na autonomia
Alunos não são divididos em séries, não há aulas de 50 minutos nem provas
Se a proposta fosse de uma escola tradicional, autonomia seria a palavra de ordem do Projeto Âncora, em Cotia, na Grande São Paulo. Mas quem faz o Âncora não tem simpatia por um vocabulário autoritário. A escola, inaugurada neste ano, não tem séries, não tem turma, não divide alunos por idade, não tem aulas expositivas, não tem prova – mas é bom que se diga que há muitas outras coisas.
Não é apenas uma inspiração na portuguesa Escola da Ponte, referência internacional: o educador José Pacheco, idealizador da Ponte, está por trás como colaborador e mentor. Essa é uma das mais consistentes parcerias de Pacheco no Brasil, país que visita há mais de dez anos para consultorias, palestras e estudos e onde mora desde 2006 (mais informações nesta página).
Os alunos têm contato com circo, artes, música, informática, skate e todo o conteúdo previsto nos parâmetros curriculares. Sãos eles que vão definindo a agenda do dia, os horários a seguir, sempre tutoreados pelos professores. O ensino é em horário integral, das 7h20 às 16h30.
No Âncora, ONG que faz atendimento social desde 1995, o modelo engessado de educação com aulas expositivas, com alunos enfileirados e padronizados não existe. “Não há fundamento teórico e nada nas lei de diretrizes que justifique aulas de 50 minutos, divisão de séries e idades e resulta milhões de analfabetos”, afirma Pacheco.
O esforço é por uma aprendizagem coletiva, cidadã, de busca pelo conhecimento em que cada aluno tem seu tempo de aprender e de se interessar. Um modelo feito “com” e não “para”, como explicam os coordenadores.
A aprendizagem é conduzida por projetos de pesquisa, cuja definição dos temas são discutidos por todos, bem como o resultado da empreitada. E o conhecimento, os conteúdos, são compartilhados – sem imposições. A ideia é de um processo em que, pela pesquisa, desenvolva-se as competências para aprender.
Caminho. O Âncora tem 180 alunos com idades entre 6 e 12 anos – referente ao ciclo 1 do ensino fundamental (de 1.ª a 5.ª série). Não há custo para as famílias. O projeto é financiado por empresas, institutos e doações – um dos principais parceiros é o Instituto Natura. Todos moram a3 kmda escola e têm renda familiar de até 3 salários mínimos.
Fundado pelo empresário Walter Steurer, morto no ano passado, o projeto fazia até 2011 o atendimento só no contraturno – além da creche, que hoje atende 52 crianças. “Parecia que estávamos enxugando gelo, precisávamos ir além”, diz a coordenadora-geral, Suzana Ribeiro.
Pacheco topou participar e no primeiro semestre de 2011 o Âncora como escola começou a ser desenhado. “A Ponte é uma referência, mas não há réplica. Porque é importante o que se constrói na prática aqui”, reforça ele. “Não estamos fazendo experiência, moda. É um trabalho fundamentado. Aluno não é cobaia.”
Apesar de não ter classes e séries, o Âncora tem divisão em níveis: iniciação, desenvolvimento e aprofundamento. Não é a idade que define onde o aluno está, mas na iniciação há atenção especial para a alfabetização entre 6 e 7 anos. O motivo é claro: ler e escrever é essencial para todo o resto. “Antes da autonomia, ele passa pela heteronomia. O aluno não decide tudo. Só no aprofundamento, por exemplo, é que registra a autoavaliação diária”, diz a coordenadora pedagógica Edilene Morikawa.
Edilene explica que o foco inicial foi a atitude, tendo o conteúdo como coadjuvante. “Era necessário mudar o paradigma, as crianças vinham com o modelo que tinham de escola.” O desafio era fazer as crianças incorporarem a proposta de liberdade com autonomia, responsabilidade e colaboração. “Alguns perguntavam: ‘mas como não vai ter prova?’; ‘Pode ficar o dia todo no circo?’. Houve dificuldades no início.”
Não foi fácil fazer com que os alunos entendessem a importância de ouvir uns aos outros – e não falar todos ao mesmo tempo. “É preciso levantar a mão e aguardar sua vez de falar. No começo foi muito difícil. Um professor ficou 57 minutos com a mão levantada, esperando a sua vez. Aos poucos eles foram pegando”, explica Edilene.
Ao entrar no Âncora, a impressão é de que as crianças estão sem fazer nada, correndo para lá e para cá. Mas logo se percebe que há muita disciplina. Até mais que em outras escolas.
Maria Helena Silva, de 10 anos, explica o que acha de diferente. “Não é que nem a outra escola, em que a professora põe na lousa e todo mundo copia. E não precisa avisar que vai sair para ir ao banheiro”, diz ela, baixinho, para não atrapalhar. Ela adora português, mas sonha em ser contorcionista ou policial.
Maria estudava com a colega Jady Santos da Mota, também de 10, que mostrou a pasta com a ordem das atividades e horários. Em branco, os campos a serem preenchidos no fim do dia: o que aprendi, o que não fiz e por que não. “A gente aprende mais porque aprende a ser responsável.”
Bastidores. Além de níveis, os alunos também são divididos em grupos, com critérios de evolução e interesse. Há salas ambientes para estudos e a tutoria com professores, com que fazem reuniões semanais em grupos. Ao longo do dia, professores, coordenadores e voluntários estão nas salas, na biblioteca, na quadra.
“A avaliação é complexa, o acompanhamento é individual”, explica Edilene. O Âncora tem uma fila de espera de 400 alunos. As crianças que estão na creche serão absorvidas, mas ainda não está decidido se haverá abertura de novas vagas no ano que vem.
Pacheco vislumbra milhares, a cidade, o País. “Não é um projeto de escola, é um projeto de sociedade.”
Colaboração entre colegas é parte essencial
Às 8 horas da sexta-feira passada, Lohan Apezato, de 9 anos, cumpria um compromisso: ensinar expressões numéricas para o amigo Igor Yasushi, também de9. A colaboração entre colegas é parte essencial do projeto. Quem precisa de ajuda coloca o nome em um mural. Ao lado, os Alunos que podem ajudar escrevem seus nomes e marcam o local e horário para o encontro. “Falei pra ele que começa comas contas de mais ou menos. E depois vai para as outras contas”, explica Lohan.
A atividade era realizada na sala de leitura e vídeo, com ligação para a biblioteca. Um prédio com uma bela arquitetura. Mas, se eles quisessem, poderiam se encontrar embaixo da árvore, perto da pista de skate. Como já acabaram a lição e ainda sobrava tempo para a próxima atividade (naquele dia, tinham pela frente linguística, matemática e tricô com os dedos) Lohan e Igor foram apresentar um pouco dos 11mil m² do Âncora.
O local abriga a tenda de circo, quadra, refeitório, espaço para artes, marcenaria, pomar e muito verde. “Eu gosto do circo, mas gosto também de fazer lição”, explica Igor, antes de mostrar algumas cambalhotas. Os dois vieram de Escolas municipais da cidade, que seguem o modelo tradicional. Adoram o Âncora, mas a adaptação não é igual para todos. E mesmo para os pais. No início, nove pais tiraram seus filhos por acharem que não se aprenderia nada ali. Mas quem acreditou não se arrepende.“ Tem dado muito certo, meu filho teve uma mudança rápida. Estámais calmo, concentrado. E está aprendendo até espanhol”, diz Alexandre Bascegas, de 34 anos, pai de Henricco, de 8. Bascegas, que tem uma pizzaria, diz ter ficado impressionado com os profissionais. “Sinto que todos podem responder sobre o Henricco. Até o porteiro tem a mesma responsabilidade com as crianças que a diretora.” Essa multiplicação de responsabilidades, de uma Escola, famílias e até uma cidade de Educadores, é outro princípio que move o Âncora.
Dentro do projeto, o modelo se repete.A gestão do material Escolar, que é todo coletivo, é decidida com os Alunos. Nas reuniões de pais, a ideia é que eles contem o que fizeram e o que acontece na Escola. A copeira Rosana de Souza, de 44 anos, tem aprovado como a filha Antonia Maria, de 10, está se desenvolvendo. “A criança é que se desenvolve, aprende a ser independente”, diz.“A Antonia melhorou muito em se enturmar com os colegas. Ela tinha dificuldades.” A coordenadora Claudia Duarte explica que a evolução ocorre na prática. “A autonomia se cria com autonomia”, afirma. O próximo passo é constituir uma assembleia da Escola, em que todos votam, a associação dos pais e consolidar o processo de autonomia. Mas é o processo que vai dizer como será o caminho.
Base teórica e científica do projeto é brasileira
O português José Pacheco conhece a educação brasileira. Não só pelas recorrentes visitas, que resultaram na sua mudança para o Brasil, há seis anos. Ele afirma que toda a base científica e teórica da pedagogia que tem praticado há mais de 30 anos é brasileira. E cita uma lista de mais de 20 nomes, entre eles Eurípedes Barsanulfo, Anísio Teixeira, Fernando Azevedo e Paulo Freire. “O Brasil passa por um momento incrível. É para cá que o mundo precisa olhar.”
No Brasil, Pacheco deu consultorias para 58 cidades, em quase todos os Estados. Os projetos são diferentes pelo País, porque, como ele explica, “cada escola é diferente da outra”. Mas alguns princípios desse trabalho realizado são comuns, como a colaboração entre escolas, universidade e poder público. E processos de integração com a comunidade.
Conhecido pelo sucesso da Escola da Ponte, um colégio público que se desenvolveu de forma descolada das políticas do Estado, sempre em busca da sua autonomia, Pacheco coloca exatamente o poder público como central para uma revolução na educação. “O centro de articulação é o poder público. Ele é que tem de tomar as rédeas para as mudanças. Autonomia é política pública.”
Pacheco afirma que é possível tornar experiências, ainda hoje sempre isoladas, em políticas públicas. “O poder público precisa tomar vergonha, fazer escolhas, evitar o desperdício.”
Segundo o educador, a Escola da Ponte tem metade do custo por aluno das tradicionais. O Âncora, por exemplo, não tem 15 professores. Os resultados já alcançados no primeiro semestre eram esperados pelo educador para um ano e meio.
“O tempo não é usado nas outras escolas. As escolas estão nos topos dos rankings e só se vê conteúdo lá. A questão é que não aprendem, por isso existe desqualificação”, diz. E provoca: “Onde estudaram os corruptos? Nas melhores escolas”.
Fonte: O Estado de S. Paulo/SP