06 de julho de 2011

Educação Infantil na Rússia por Vital Didonet

Em 22 segundos, o Google oferece, se a consulta for em inglês, 1.470.000 endereços sobre educação infantil na Rússia. A busca em português é bem menor, mesmo assim é expressiva: 240 mil. Essa profusão de textos, relatórios, estudos e notícias, por si só, desperta a curiosidade dos que se ocupam da educação infantil.

Outros fatos, porém, motivam o interesse dos estudiosos e especialistas da área: a diversidade cultural daquele imenso território faz morada na política de educação infantil e na aprendizagem das crianças? A concepção de infância, de criança e cidadania tem algum matiz da legendária história do império russo, da revolução e do comunismo? A importância política, econômica e científica da URSS no panorama mundial e o confronto com o capitalismo gerou uma educação infantil própria e diferente da que se criou na Europa e nas Américas? A restrição à comunicação com o Ocidente e ao intercâmbio com outros sistemas educacionais do “oeste” foi eficaz a ponto de haver desconhecimento entre os “os dois mundos” sobre aprendizagem e desenvolvimento infantis?  Quanto Vigotsky influenciou e influencia a pedagogia da infância em sua pátria? Que marcas o socialismo imprimiu na educação da primeira infância? Que mudanças aconteceram nos princípios, conteúdos e métodos da educação infantil após a queda do comunismo? Como é o atendimento educacional na Rússia?

O espaço deste artigo não permite abordar essas questões, nem sequer superficialmente.  Mas as interrogações nos acompanharão no decorrer do texto. Nosso propósito se restringe a fazer uma breve anotação sobre as origens da educação infantil na Rússia, a destacar os princípios e as diretrizes atuais e traçar um panorama do atendimento educacional hoje praticado.

A Federação Russa demonstrou, recentemente, seu interesse político e técnico pela educação infantil como política de Estado ao realizar, com a UNESCO, um Congresso Mundial de Educação Infantil ([i]), na cidade de Moscou. No site da UNESCO ([ii]) em breve estarão disponíveis os textos das conferências, palestras, comunicações nos simpósios e apresentações em power point.

 

I – Um breve retrospecto histórico

Embora a educação na Rússia tenha sofrido uma profunda mudança com o abandono do comunismo e a entrada do capitalismo, não dá para compreender a educação infantil atual sem buscar, nas origens, os fundamentos e as orientações pedagógicas que formaram as concepções e a prática nessa etapa da educação.

As idéias pedagógicas de Froebel – e os Jardins de Infância – chegaram a algumas cidades da Rússia quase ao mesmo tempo de sua divulgação na Europa ocidental. Em 1871 foi criada a Sociedade Froebel. Em 1913 aportaram as idéias e a pedagogia de Montessori. Ambas as iniciativas foram patrocinadas por grupos privados. O Estado ainda não havia despertado para essa faixa etária como etapa de educação pública e coletiva.

A Revolução de Outubro (1917) determinou a entrada do Estado na educação como condição da igualdade entre todos os indivíduos desde a infância. Todos os jardins de infância foram transferidos para o Comissariado da Educação do Povo, e incluídos no sistema público de educação. Dos princípios político-ideológicos assinalam o desenvolvimento infantil a partir da Revolução:

(a) a igualdade das mulheres e sua participação no trabalho e na vida pública nas mesmas condições que os homens. Criou-se a licença maternidade de quatro meses, após a qual a mulher voltava ao trabalho e o Estado passava (em teoria, pois não havia instituições para atender toda a demanda) a cuidar e educar seus filhos;

(b) a busca da igualdade e justiça social entre todos os indivíduos, incluídas as crianças. Direito igual para todas as crianças à mesma educação, ao mesmo desenvolvimento, era considerado o resultado mais importante que o socialismo devia produzir. Para tanto, foram criados os jardins de infância e as creches. Estas atendiam crianças de 2 meses a 3 anos. A incapacidade de atender a toda a demanda deixou esse projeto inacabado.

 

II – Uma característica tipicamente soviética na educação infantil

A psicologia e a pedagogia científicas, cuja expressão maior se deu nos anos 30 do século XX, deram os fundamentos e orientações práticas para a educação das crianças. Vigotsky, que formulou a teoria histórico-cultural do desenvolvimento ontogenético da psique humana, e Luria, com as pesquisas sobre o desenvolvimento da linguagem e as funções cognitivas simbólicas, são as referências teóricas mais expressivas.

Deve-se registrar, entretanto, que Vigotsky sofreu pesadas restrições durante o regime stalinista, e parece que suas concepções sobre o processo de aprendizagem e desenvolvimento da criança não foi adotada em profundidade e extensão na educação infantil. O discurso atual tende a resgatar esse legado.

 

III – Situação atual

Entre os princípios da política atual de educação infantil da Federação Russa ([iii]) estão: (a) o envolvimento da sociedade num diálogo ativo e sua participação na administração da educação e (b) a transição para métodos modernos de educação. O primeiro indica uma guinada progressiva para a participação da iniciativa privada (inclusive no pagamento de uma porcentagem do custo do atendimento público em educação infantil, segundo o nível salarial dos pais).

Há diferentes tipos de estabelecimentos de educação infantil: a) gerais, que atendem as crianças que não apresentam nenhuma característica ou necessidade especial; b) compensatórios, para crianças com deficiência; c) de saúde, para crianças com doenças crônicas, tuberculose infecciosa e outras que precisam de cuidados complexos e especializados. As atividades para esses grupos incluem aquelas convencionais da educação infantil mais os cuidados e procedimentos de saúde; d) combinados: para grupos de crianças com deficiência, com problemas de saúde e crianças sem nenhuma demanda especial.

Os horários de atendimento também são diversos: tempo integral (10 a 12 horas diárias); reduzido (8 a 10 horas); extenso (14 horas); parcial (3 a 5 horas) e integral (24 horas, são os estabelecimentos de internamento, de acolhimento institucional).

As atividades são organizadas em três blocos: em sala, jogos e passeios. As áreas de desenvolvimento curricular são: desenvolvimento físico, artístico-estético, cognitivo,  linguagem e desenvolvimento social. Os passeios têm muita importância na pedagogia da infância, por serem oportunidades para as crianças observarem os fenômenos orgânicos e inorgânicos da natureza, trabalhar no jardim e na horta e brincar em áreas externas aproveitando a diversidade dos espaços, seus desafios e possibilidades. Em Moscou, todos os Centros têm ou visam a ter piscina. Todas as crianças aprendem a nadar, um dos objetivos é reduzir as enfermidades respiratórias, que são muito frequentes em Moscou.

O brinquedo é bem valorizado. Por meio dele, a pedagogia russa de educação infantil pretende formar habilidades culturais – sobre as várias expressões artísticas, bem como conhecer a diversidade cultural da Federação Russa ([iv]), hábitos de saúde, atitudes positivas em relação à vida e tolerância. Em Moscou há 130 nacionalidades. Em 38 centros pré-escolares há o componente cultural da diversidade lingüística, considerada pelo sistema de ensino uma riqueza incomparável. As crianças convivem e aprendem a respeitar as diferentes culturas. Oferecem ensino bilíngüe.

Alimentação: as crianças recebem de três a cinco refeições diárias, dependendo do tempo de permanência na instituição.

Atualmente, a Federação Russa tem 57 mil estabelecimentos de educação infantil, que atendem a 5,3 milhões de crianças, com 590 mil profissionais (professores de educação infantil, de música, de educação física, psicólogos, fonoaudiólogos e outros especialistas).

Além da presença constante do médico, que faz o controle semanal de saúde de cada criança, todos os estabelecimentos de educação infantil têm um nutricionista. Ademais de seu papel de orientar a alimentação e velar pela nutrição das crianças, ele faz aplicação de vacinas preventivas, presta os primeiros socorros e, com os professores, faz orientação às famílias sobre hábitos saudáveis e desenvolvimento harmonioso das crianças. Duas vezes por ano é feito um check-up preventivo pelos especialistas – pediatra, neuropatologista, terapeuta de linguagem, ortopedista, oftalmologista e outros. Enquanto nos centros de saúde um médico tem a seu encargo 600 crianças, nos estabelecimentos de educação infantil ele cuida de apenas noventa.

 

IV – Algumas questões para refletir

O mote do cartaz e do banner do Congresso Mundial de Educação Infantil, realizado em Moscou em setembro – “Educação Infantil – construindo a saúde das nações” pode ter em mente justificar novos e maiores investimentos nessa etapa da educação. Mas, ao mesmo tempo, revela que o foco está no futuro, não no presente; no “desenvolvimento do país”, e não a criança em si mesma. Assim fosse, a educação infantil, não na Rússia mas no mundo inteiro, estaria em risco de perder sua identidade. Seria ancilar, não um fim em si mesma.  Preparatória e preventiva, não um momento de plenitude do brincar, do expressar-se, do viver como criança. Acontece, porém, que os conferencistas, palestrantes, debatedores… vêm da área técnica, pedagógica, da pesquisa e da gestão de programas, portanto, eles acabam influenciando a concepção e as diretrizes operacionais o documento de propostas de ação.

Na descrição das funções da educação infantil na Federação Russa, há um acento agudo na sua função preparatória para as aprendizagens posteriores, a entrada no ensino fundamental. Mas essa função é mostrada como decorrência do desenvolvimento harmônico em cada idade e segundo as capacidades de cada criança. E é para atender às características individuais das crianças em cada momento de sua vida que o sistema público de educação prevê a diversidade de modelos de estabelecimentos e programas de atenção.

Qual o significado de “transição para métodos modernos de educação”, definido como princípio da política educacional da Federação Russa? As descrições de currículo, métodos e orientações operacionais não deixam claro que mudanças estão sendo operadas. Certamente não se referem a substituições de conteúdos e métodos em decorrência da saída do socialismo e entrada no capitalismo. Seria, então, a introdução de novas formas organizacionais de educação infantil, como “jardins de infância familiares”, grupos familiares ou tutoriais, clubes de famílias, salas de brincadeiras (tipo briquedotecas), como subunidades municipais ou estaduais de educação infantil, com apoio de pessoal de educação infantil e de psicologia? Essas novas formas estão propostas no documento oficial da Federação Russa sobre a educação infantil como o “olhar para o futuro”.

Surge, agora, a necessidade de estabelecer diretrizes normativas e metodológicas para a iniciativa não governamental na educação infantil. O Estado, no entanto, se propõe a desenvolver e implementar programas regionais para a ampliação da educação infantil como parte do objetivo de garantir o conceito de Política Demográfica da Federação Russa até 2025. O País pretende enfrentar a queda abrupta da população com várias medidas, entre elas está o uma atenção mais ampla e cuidadosa das crianças. Essa decisão carreia recursos e programas para a educação infantil. Nesse contexto, os educadores precisam estar atentos para que as crianças não seja encaradas como estratégia geopolítica, e sim como sujeitos sociais com direitos específicos da infância.

 

Por: Vital Didonet (Especialista em educação infantil e em política educacional)


[i] WCECCE – World Conference on Early Childhood Care and Education, Moscow, Russian Federation, 27-29 September 2010. http://unesdoc.unesco.org/images/0018/001873/187376e.pdf

[iii] UNESCO. WCECCE/Ref.6. Early Childhood Care and Education – Country Report. Russian Federation, 27 August 2010.

[iv] O espetáculo artístico que as crianças apresentaram no Kremlin para os 1.400 participantes do Congresso comprovou que a pedagogia da infância dá muita atenção à arte e à diversidade de expressões artísticas do país. As crianças se expressavam com tamanha espontaneidade, leveza e alegria e beleza, que pareciam profissionais…

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