29 de outubro de 2026
Cultura e primeira infância: como garantir políticas públicas que assegurem este direito e considerem a diversidade?
MIMUS 2026, realizado pela Usina da Imaginação com apoio da RNPI, discutiu cultura, natureza e bem viver em encontros online entre os dias 20 e 22 de outubro
Crianças também são produtoras de cultura. Expressam e constroem saberes em seu cotidiano, na relação com suas comunidades e territórios. E para compartilhar experiências e refletir sobre as diferentes formas de viver e produzir cultura com, pelas e para as infâncias, o MIMUS 2026 – Múltiplas Infâncias, Múltiplos Saberes, uma série de três encontros online realizados pela Usina da Imaginação, reuniu pesquisadores, educadores, artistas, agentes culturais, crianças e adolescentes, entre os dias 20 e 22 de outubro. Nesta edição, os debates abordaram as relações entre cultura, natureza e bem viver, valorizando os saberes dos territórios e as manifestações da cultura popular.
Esta edição contou com apoio da Rede Nacional Primeira Infância e teve participação da coordenadora da Secretaria Executiva, Soraia Melo, presente no primeiro dia, que teve como tema “Arte e cultura para o bem viver das crianças”. Soraia falou sobre a importância das políticas culturais e sobre o trabalho da RNPI na garantia de direitos de bebês e crianças de até seis anos.
Aprofundando a conversa e trazendo a discussão para as possibilidades de atuação da sociedade civil e para a contribuição que a Rede Nacional Primeira Infância pode oferecer ao fortalecimento deste debate, entendendo a cultura como direito da criança, ouvimos a Diretora Executiva da Usina da Imaginação, Rita Oenning da Silva. A entrevista você confere a seguir:
Crianças também são produtoras de cultura. Como isso se expressa no cotidiano e na relação com suas comunidades e territórios, levando em consideração as múltiplas infâncias brasileiras?
As crianças, como todo ser humano, são experimentadoras, aprendizes e produtoras exímias da cultura. A criança é pesquisadora do mundo, e faz isso pela linguagem do brincar, experimentando com o próprio corpo, testando e construindo seu conhecimento criativamente. Interagindo com crianças em diferentes culturas (indígenas, quilombolas, rurais, periféricas e mesmo de grandes cidades – o que as crianças de Recife chamam de “crianças de prédio”), pude presenciar diferentes formas das crianças expressarem e construírem uma cultura própria feita entre pares. Crianças indígenas do Rio Negro, por exemplo, andam normalmente em grupos, interagindo com o meio e brincando com autonomia, muitas vezes caçando, colhendo frutas, produzindo suas próprias casinhas na mata, nadando nos rios, desenvolvendo brincadeiras e uma linguagem própria, que signifca e simboliza suas experiencias partilhadas. Mas não é só entre os pares que a criança produz cultura. Em comunidades onde a cultura é transmitida pelo “saber fazer” e pela oralidade, a criança participa do mundo adulto, brinca de fazer, imita, mas também modifica esse saber a seu modo, com as ferramentas corporais, intelectuais e imaginativas que ela já é capaz de articular. Nadar, por exemplo, é uma importante necessidade em comunidades ribeirinhas; as crianças criam jogos aquáticos, onde se experimentam na água quase todo o tempo. Ninguém manda uma criança aprender a nadar, mas ela aprende com os amigos, experimentando, ou em algumas casos, ainda bebê, na primeira vez que é jogada dentro do rio. Sobem açaizeiros como jogo (quem sobe mais alto e mais rápido) e, subindo, treinam músculos e força para poder coletar essa fruta tão importante em sua dieta. Então, essa ideia de separar o brincar do aprender não está tão definida e demarcada na cultura em muitas comunidades indígenas, rurais e quilombolas no Brasil. Se aprende com o corpo todo. A escola é a vida, a roça, o mato, o rio, especialmente na primeira infância. Crianças constroem também seus brinquedos e, muitas vezes, o brincar é o fazer: barquinhos, pião, escorregadores, bonecas, carrinhos, rocinhas e comidinhas são parte do jogo.
Em andanças pelo Brasil profundo, como antropóloga e curiosa com as culturas, percebi os diferentes modos que os povos concebem e respeitam as crianças e suas formas de produzir cultura. Cada grupo cria estratégias e caminhos para que a criança seja ativa nessa construção. Por exemplo, os baniwa, povos indígenas do Rio Negro, na Amazônia, não seguram a cabeça do bebê, e com essa técnica desenvolvem pescoços fortes, o que certamente se espelha no protagonismo dessa cultura e de suas crianças. Os Tukano e Tariano também estimulam o protagonismo da criança desde o primeiro momento que chega ao mundo. Comem com as próprias mãos tão logo possam, socializam cedo com as demais crianças, andam livres no território, desenvolvem seus próprios músculos subindo em árvores, nadando nos rios, aprendendo a identificar e coletar sua própria comida nas árvores. As crianças produzem cultura desde que os pais ficam sabendo da sua concepção. Sua chegada provoca uma mudança da identidade dos seus. Transforma, por exemplo, uma mulher em mãe, um homem em pai, um pai em avô, e esse processo, em muitas culturas, é reconhecido em rituais de passagem de um estado a outro. No sul do Brasil, os kaingang dizem que, já antes de nascer, o bebê escolhe em qual família quer vir ao mundo, e os pais devem acolher com carinho essa escolha, para que, ao nascer, a criança siga elegendo aquela mulher e aquele homem como seus pais. Caso contrário, a criança pode decidir ir embora, adoecendo ou adotando outra família que lhe dê mais atenção. Esse é, inclusive, um fator de proteção de violência dos adultos contra as crianças: a criança kaingang deve ser muito bem tratada.
As infâncias são diversas e assim devem ser vistas. Toda criança dentro de uma cultura específica é única e deve ser vista e respeitada como tal. Nos muitos locais onde passei, como Daniel Munduruku, nunca ouvi a pergunta: o que a criança vai ser quando crescer? Porque ela já é desde que chegou. Como parte de um território, construímos nosso lugar criativamente, de modo prático e simbólico, e as crianças são especialistas em criatividade.
Qual a importância das políticas públicas culturais voltadas às crianças desde a primeira infância, entendendo a cultura como direito?
As políticas culturais voltadas às crianças são um direito delas e um dever nosso e do estado. Valorizar a cultura feita PELAS, COM e PARA as crianças pode ser parte estratégica e consciente da nossa sociedade, assegurada por uma política com programas pensados para elas, com orçamento vindo de um fundo cultural. Garantir espaços para brincar e experimentar na natureza, parques verdes em áreas construídas, mais tempo livres para estar entre pares, acesso ao fazer arte, ao fazer criativo livre, a narrativas diversas, à cultura dos mestres e mestras, ao fazer manual, às brincadeiras e aos artefatos culturais construídos pelas e para as crianças são fundamentais desde o começo da vida, para o desenvolvimento integral das crianças e da nossa sociedade. Crianças que são reconhecidas e respeitadas pelo entorno são crianças que constroem um mundo acolhedor para os que chegarem depois, porque cultura é começo, meio e começo (Nego Bispo). Nunca tem fim. Cabe a nós deixarmos esse legado respeitoso para as crianças, com políticas feitas com elas.
Reconhecer que a cultura é parte indissociável do humano é essencial para nos construir como expressões que somos da natureza e da cultura. Por isso, é fundamental pensar na cultura como política. Ela pode, inclusive, ampliar as demais áreas, e deve vista de modo intersetorial na Primeira Infância, conjugada com programas de saúde, de assistência, de educação e do cuidado. A criança tem direito a cultura e, portanto, uma política cultural deve ser feita entendendo a importância de acessar beleza, movimento, dança e arte. Nenhuma criança existe sem a cultura e toda política cultural deve incluir as crianças nessa construção, inclusive da cultura como arte.
Quais são as ferramentas e estratégias que municípios e estados podem adotar para garantir que o direito à cultura esteja incluído nos planos intersetoriais pela primeira infância?
Na construção de planos Intersetoriais pela primeira infância, é preciso entender que a cultura não vem em caixinhas fechadas. Saúde, Educação e Cultura são misturadas nas práticas cotidianas e no saber fazer. Quando nos dedicamos a construir esses planos, temos que, antes de tudo, ouvir as crianças e garantir sua participação: considerar a cultura e os saberes que elas produzem, além de ouvir os adultos responsáveis por elas em seus territórios.
“Nada sobre nós sem nós” é uma frase que faz muito sentido também no caso das crianças. Muitos programas têm dificuldade de reconhecer essa premissa, por ainda verem as crianças como “menores” em termos culturais e de conhecimento. Precisamos superar a ideia de que crianças são menos conhecedoras do mundo. Elas têm experiências diferentes e pertinentes sobre o lugar onde estão e ideias incríveis que nos auxiliam na construção de programas. As crianças são os seres mais criativos do mundo, se tem liberdade para se expressar.
Para esse processo, precisamos garantir orçamento e tempo, construindo o plano COM as crianças (e para elas). Precisamos ainda considerar as diversas infâncias, incluindo as peculiaridades culturais nessa elaboração. A arte e a cultura são ferramentas incríveis de diálogo e expressão, e podem gerar resultados fabulosos quando se permite a expressão sensível e livre das crianças. Depois de ouví-las, é preciso não medir esforços para construir um plano que considere sonhos e perspectivas da diversidade dos territórios. Programas que são sensíveis a aspectos culturais e que buscam caminhos de tradução efetivos são muito mais eficazes nos seus propósitos. É importante considerar que, nesse processo, o plano já está sendo construído e testado: avaliar enquanto se constrói é também uma forma deconstruir com as crianças um processo que pode ser adaptado e é, portanto, mais efetivo.
Na sua visão, qual o papel das organizações da sociedade civil na garantia do direito à cultura para as crianças e como a Rede Nacional Primeira Infância pode contribuir para o fortalecimento deste debate?
As organizações da sociedade civil, especialmente aquelas que têm vínculo com as crianças e seus territórios, têm a possibilidade de amplificar os olhares do poder público e da sociedade sobre demandas locais. Quando dialogam de perto com as comunidades, trazendo suas necessidades básicas e suas potências, as organizações da sociedade civil trazem uma expertise e um acúmulo de conhecimento sobre a diversidade das infâncias e sua cultura, pressionando para que programas específicos sejam criados ou modificados. Com metodologias adequadas, constroem mediação, pressão social e advocacy para que as políticas possam ser criadas e efetivadas com a qualidade que as crianças merecem. Redes como a RNPI, o Grupo Nacional Cultura Infância, a Rede de Pontos e Pontões de cultura são fundamentais na construção de conhecimento e na pressão social em prol de melhorias das gestões públicas e criação de leis que garantam os direitos das crianças. Com mais tempo de experimentação nos territórios, mais tempo de debate do que um mandato pode acumular em quatro anos de gestão pública e mais pesquisa e contribuição coletiva, organizações da sociedade civil são espaços genuínos de construção de saberes que permitem potencializar o que o Estado pode efetivar na construção de políticas culturais com e para as crianças.
A Usina da Imaginação, como parte dessas Redes e em diálogo com outras organizações, tem dialogado com a Secretaria de Diversidade e Cidadania do Ministério da Cultura, buscando contribuir para uma política cultural de qualidade com a participação das crianças. Nesse sentido, construímos espaços de participação das crianças nos Fóruns e nas Teias do Cultura Viva de Santa Catarina e nacional, da qual fazemos parte. Levamos ainda crianças de diferentes biomas e culturas para a oficina de participação infantil “Terra Sonhada”, realizada no Seminário Cultura, Infância e Natureza: Agir Pelo Planeta, que aconteceu no Rio de Janeiro, em 2025, e resultou numa carta desenhada pelas crianças e no filme Terra Sonhada (Curta doc, 19 min, RJ), no qual as crianças falam sobre a natureza, cultura, seus sonhos e problemas com a crise climática. Falam ainda da importância de sua participação na construção das políticas culturais. A carta e o filme foram apresentados pelas crianças às Ministras dos Direitos Humanos e da Cultura, e fizeram parte da COP 30 e do Seminário Cultura desde o Berço, realizado em Fortaleza, agora em outubro de 2026.
Você pode assistir aos três encontros do MIMUS 2026 no YouTube da Usina da Imaginação:
MIMUS 2026 – Dia 1
MIMUS 2026 – Dia 2
MIMUS 2026 – Dia 3