27 de junho de 2011

Grávida, estado civil: solteira

Uma mãe solteira conta como mulheres que optaram por fazer inseminação, que terminaram o relacionamento durante a gravidez ou que não tinham um relacionamento sério ao engravidar enfrentam as dificuldades de estarem sozinhas durante a gestação e criação dos filhos

 

Tive dificuldade de me orgulhar por ser mãe solteira porque, no fundo do coração, sentia-me muito envergonhada por o pai de Lulu ter sumido e me deixado sozinha para criar minha filha. Demorei anos para entender que, ao lhe dar meu coração eu havia feito o pior investimento possível de minha vida, mas havia recebido o melhor de todos os retornos. O que há de vergonhoso nisso? Quando olho minhas fotos com Lulu, fico pensando como eu não via como éramos lindas e corajosas. Há muito tempo, quando éramos só nós duas. Levante a cabeça. Orgulhe-se de sua força e de sua capacidade para ir em frente. Agradeça por tudo que você é e tudo que recebeu. Amém. Assim escreveu a mãe solteira Betty Londergan em seu livro Mamãe Sexy – Um Guia para Sobreviver à Maternidade Mantendo-se Mulher (ed. Gente).

Eu sou mãe solteira. Estava “ficando” com um cara há três meses, sem saber que ele tinha outra. Deixei a coisa rolar e, como deixei meu destino nas mãos da famosa pílula do dia seguinte, acabei engravidando. Passei a gravidez sozinha, chegando até a frequentar um curso de gestantes para casais. Recomendação às grávidas solteiras: não façam esse tipo de curso. Ele é ótimo, mas escutar palestras sobre a importância do pai na gestação foi uma das experiências mais dolorosas por que já passei.

Seja por opção ou pela falta dela, ser mãe solteira é sair do lugar-comum. A sociedade nos cobra que encontremos o príncipe encantado e realizemos a fantasia da maternidade. Quem é que, quando criança, imaginava a Barbie engravidando de um relacionamento casual? Ou escolhendo as características de um pai ideal em um banco de sêmen? E mais: que o Ken largaria a boneca mais cobiçada do mundo após o teste de farmácia acusar dois palitinhos?

O psicanalista Mário Corso, pai de Laura e Júlia, explica que a mulher sonha com o filho para si, este que a completará, realizará seus desejos e a fará sentir-se realmente feminina. “Pensar que uma mulher possa dispensar totalmente da presença física de um pai, quer seja na hora da criação ou mesmo da concepção, é revolucionário, assustador e tão novo que ainda não sabemos nem como catalogar essa realidade. Mas ela existe”, afirma o psicanalista. Corso e sua mulher, autores do livro A Psicanálise na Terra do Nunca (Ed. Penso), concordam que a gestação solitária exige que a mulher seja suficientemente corajosa para negociar entre sua condição e a pressão social por uma solução mais convencional, ou seja, criar filhos dentro de uma família nuclear padrão.

Nós, mães solteiras, viveremos sempre esse impasse em todos os lugares públicos, e teremos de ter, ou desenvolver, muita segurança para bancar nosso papel num contexto onde corremos o risco de sermos olhadas como incompletas ou insuficientes.

 

Grávida de um relacionamento casual

Somos mulheres esclarecidas e conhecemos os métodos contraceptivos: pílula, camisinha, DIU. Mas existe algo em nós, muito mais forte que a razão, que nos fez brincar com o destino. Sim, Freud explica. “A mulher que não faz uso de nenhum método anticoncepcional pode nem se dar conta conscientemente, mas deseja ficar grávida. Isso também vale para o homem que não usa preservativo na relação. É o chamado pensamento mágico: ‘Não vai acontecer comigo!’”, explica a terapeuta familiar Maria Tereza Maldonado,  mãe de Mariana e Cristiano.

Eu, que confiei na “pílula do dia seguinte”, acabei passando os oito meses de gestação sozinha. A pior parte foi não ter com quem discutir meus medos, minhas inseguranças, quem me acompanhar nos exames – dividir a euforia de escutar o coração batendo pela primeira vez e sair de lá querendo gritar que havia um ser vivo ali dentro da barriga.

Corso explica que as gestantes exigem estar em estado de graça constante, o que é impossível em uma experiência impactante como a gravidez. “Todos esses conflitos e a fragilidade decorrente deles são mais duros de vivenciar sem um apoio, sem alguém com quem dialogar ou mesmo partilhar durante a jornada. Por isso uma gestação solitária é mais pesada. Essa companhia não precisa ser o pai da criança. A diferença é que o pai é alguém que está na mesma viagem, portanto tende a ser mais fácil se desenvolver um nível de empatia”, afirma o psicanalista.

Durante minha gestação, senti muita falta de exemplos de mulheres que haviam passado pela mesma situação, que conseguiram superar essa fase e depois estavam felizes com seus filhotes, de cabeça erguida. Foi por isso que, após alguns meses do nascimento da minha filha, resolvi fazer o blog Grávida, estado civil mãe (solteira), para que grávidas na mesma condição pudessem trocar experiência e servir como uma grande “rede de apoio”.

Betty Londergan fala, em seu livro, da cobrança da sociedade por uma aliança na mulher grávida. “Eu me sentia moral e politicamente correta em ter um bebê fora dos laços do casamento… Apesar de minha tranquilidade interior em ser mãe solteira, senti-me dolorosamente exposta pela falta de algo dourado em meu anular esquerdo… E sentia que aquela área vazia era algo como um grande anúncio em neon que dizia a todos que ele não me quis”, escreveu Betty.

A pernambucana Cinthya Danielle dos Reis Leal, mãe de Pedro Vicente, de 2 anos e 10 meses, nunca namorou oficialmente o pai do filho. “Eu me irritava quando queriam saber sobre o ‘meu marido’. Quem disse que precisa ter marido para engravidar? Tenho  uma boa relação com o pai, mas ele mora muito longe e eu crio o meu filho sozinha. É uma barra, mas ele é a melhor coisa que já me aconteceu”, afirma Cinthya.

 

Inseminação artificial

Para algumas mulheres, a maternidade é um objetivo. São mulheres modernas, independentes, que priorizaram a carreira e, agora, o relógio biológico começa a bater mais forte. Hoje, a inseminação artificial permite que a mulher decida sozinha quando quer engravidar. “A procura está crescente em mulheres solteiras de 35 anos que não acharam seu ‘príncipe encantado’”, afirma Eduardo Motta, pai de Daniella e Camila, diretor do Huntington Centro de Medicina Reprodutiva.

Motta considera muito importante o apoio familiar. De acordo com ele, existe o momento da excitação e, depois, vem a fase da cobrança. “A sociedade é muito preconceituosa por você não ter achado um marido, o pai do seu filho. Poder contar com a família é muito importante”, afirma o especialista. Para ele, a terapia é fundamental no momento de tomar a atitude. Ele ainda acredita que, se as mulheres que o procuram pudessem recorrer a uma mágica que atendesse aos seus pedidos, certamente iriam escolher um companheiro para, juntos, terem um filho. “Mas, como se adaptou à realidade da própria vida, essa mulher toma as rédeas do seu destino e realiza seus sonhos com as ferramentas que estão ao seu alcance: a inseminação artificial”, pondera.

Marilu, de 44 anos, fez o procedimento há cinco anos e não se arrepende. “Eu cuido da minha filha sozinha, sou eu que decido como será a educação dela, tive o apoio da minha família e nunca tive problemas em falar que era uma produção independente”, disse a paulista que conta com duas babás para manter a rotina da casa. Nos primeiros dias, de pós-parto e amamentação, Marilu contou também com a ajuda da mãe.

No filme Coincidências do Amor (2010), a atriz Jennifer Aniston interpreta Kassie, uma mulher que quer engravidar e recorre a um doador de espermatozóide. Ela decide fazer a festa da gravidez e seu amigo Wally (Jason Bateman) troca o “material” do doador após ter bebido demais. Sete anos depois, eles descobrem que Sebastian (Thomas Robinson) é filho dos dois. Nesse caso, o roteiro juntou uma pitada de conto de fadas à decisão da mulher moderna.

O interessante é como Kassie conta a Sebastian sobre seu nascimento: “Quando quis engravidar, mamãe não tinha marido, mas o queria muito. Ela foi ao médico e ele a mandou procurar bastante semente. Então ela procurou um ‘fornecedor de semente’”. Aliás, Sebastian tem uma compulsão curiosa: ele coleciona porta-retratos, mas não coloca fotografias nos mesmos. Ele costuma deixá-los com as fotos do próprio banco de imagens que já vem neles.

Em uma conversa com o pai, o menino revela o segredo da sua mania: na falta de fotos de família para colocar nos porta-retratos, ele inventa uma história para cada personagem do banco de imagens. Um pode ser seu tio, outro seu avô, outro uma tia-avó, e assim vai preenchendo os vazios dos álbuns e costurando os buracos da sua própria história.

 

Mães solteiras famosas

J.K. Rowling
A criadora do fenômeno Harry Potter, J.K. Rowling foi casada com um jornalista com quem teve a sua filha, Jéssica, em 1993. No ano seguinte, ela estava divorciada,  falida e não tinha dinheiro nem para deixar sua filha numa creche.

 

Danielle Winits
Ela é a grávida solteira mais famosa do momento. No 8º mês de gestação, a atriz se separou do pai de seu filho, o ator Jonatas Faro. “Estaremos para sempre unidos pelo amor ao nosso filho”, disse o pai no Twitter.

 

Bridget Moynahan
Bridget Moynahan
é a mãe de John, 3 anos, o primeiro filho de Tom Brady e enteado da top Gisele Bündchen. “Em nenhum momento eu me arrependi de ter dado à luz sozinha. Mas acho que nenhuma garota sonha em ser mãe solteira.”

 

Michelle Williams
A atriz Michelle Williams é mãe solteira de Matilda Ledger, de 5 anos. O pai de Matilda, o ator australiano Heath Ledger, faleceu em 2008. Ela tem como projeto abrir um centro de ioga para mães solteiras.

 

Mariana Kupfer
Mariana
optou por fazer uma inseminação artificial para ter a filha Victória, de 1 ano. “O meu desejo pela maternidade sempre foi o maior do mundo. Tomei uma decisão digna e honesta ao optar por uma produção independente.”

 

Sandra Bullock
Em 2010, a atriz pediu o divórcio. Ela havia iniciado um processo de adoção há quatro anos e decidiu criar o menino Louis sozinha. A filha do ex-marido Jesse James, Sunny, foi quem sugeriu que os dois adotassem.

 

Fonte: Flavia Werlang, mãe de Luna (Revista Pais e Filhos)

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